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Está longe de ser um caso único, mas não deixa de ser um exemplo paradigmático. José Milhazes é especialista no PCP e no comunismo em geral, título que lhe é conferido, como a outros, pelo simples facto de ter passado (durante quanto tempo pouco interessa) pelas fileiras do Partido. Mas o Milhazes é ainda melhor, pois viveu na União Soviética e depois na Rússia, o que lhe dá outra qualidade: a de especialista em tudo o que tenha origem nesse imenso país.
Ora, o bi-especialista publicou recentemente um artigo no Observador em que manifesta a sua concordância com a resolução aprovada no Parlamento Europeu que equipara o nazismo ao comunismo. Quanto aos deputados que a votaram favoravelmente – onde se incluem os do PSD, CDS, PS e PAN – demonstraram «coragem», diz o Milhazes. Seguramente a mesma de que dão provas quando condenam milhares de refugiados à sobre-exploração ou à morte no Mediterrâneo, quando promovem a militarização da União Europeia ou quando, no Parlamento Europeu e em cada um dos seus países, privatizam empresas, desmantelam serviços públicos, fragilizam as relações laborais, concentram a riqueza…
O Milhazes sabe muito de história, mas não se referiu ao facto de ter sido a União Soviética a assumir o papel mais relevante na derrota do nazi-fascismo e a pagar por ela o mais elevado preço em vidas humanas: mais de 20 milhões. Nem de ter sido o Exército Vermelho a libertar não apenas os prisioneiros de Auschwitz, mas mais de 100 milhões de seres humanos subjugados ao nazi-fascismo em toda a Europa Central e Oriental. Como também não achou importante referir que a URSS apelou durante anos à unidade com britânicos e franceses contra a Alemanha nazi e que estes preferiram ceder às exigências de Hitler para, deste modo, o voltar contra a União Soviética. O bi-especialista quer estender a condenação do comunismo, em qualquer das suas expressões, para lá das fronteiras da Rússia, mas oculta que foram (e continuam a ser) comunistas os mais combativos resistentes antifascistas em todos os países, incluindo em Portugal.
Mas Milhazes está sedento e não só quer transpor o teor da resolução para os currículos escolares do secundário como «arejar» o Ensino Superior dos «ideólogos de extrema-esquerda» que garante andarem por lá. Tudo, claro, em nome da democracia, que o nosso bi-especialista tanto preza. Mesmo quando clama por purgas.
Deixemos a caracterização dos Milhazes deste mundo ao escritor alemão Thomas Mann, para quem comparar comunismo com fascismo, «na melhor das hipóteses, é uma superficialidade; na pior das hipóteses, é fascismo. Quem insiste nessa comparação pode ser considerado um democrata, mas na verdade, e no fundo do seu coração, ele é realmente um fascista e é claro que só combaterá o fascismo de maneira aparente e hipócrita, deixando todo o seu ódio para combater o comunismo».