À caça

Anabela Fino

Ao ar­repio do ca­len­dário ve­na­tório o País en­trou em plena época de caça. Os alvos não são le­bres nem per­dizes, ga­li­nholas ou saca-rabos, co­e­lhos ou ja­valis, mas sim os ci­da­dãos elei­tores que a di­reita an­seia ver cair como tordos sob o fogo cer­rado da sua de­ma­gogia elei­toral. O chumbo, dis­far­çado de me­didas a constar nos res­pec­tivos pro­gramas elei­to­rais, tem vindo a ser lan­çado nos media, com Cristas e Rio a pro­ta­go­nizar um cu­rioso nú­mero de Du­pont e Du­pont.

Ambos dizem ter como ob­jec­tivo re­duzir a carga fiscal sobre as fa­mí­lias e em­presas. Rio fala em baixar 3,7 mil de mi­lhões de euros em im­postos e em re­forçar o in­ves­ti­mento pú­blico em 3,6 mil mi­lhões de euros. Já Cristas aponta para 3,2 mil mi­lhões de euros, custo atri­buído à re­dução em 15% da taxa efec­tiva média do IRS até 2023, e para uma baixa do IRC para 12,5%, no prazo de seis anos.

Sa­bendo-se que o res­pon­sável pelo pro­grama do CDS é o seu ex-vice-pre­si­dente Adolfo Mes­quita Nunes, ex-se­cre­tário de Es­tado do Tu­rismo e hoje no con­selho de ad­mi­nis­tração da GALP; que o se­cre­tário de Es­tado res­pon­sável pelos As­suntos Fis­cais no go­verno PSD/​CDS era do CDS; que Pedro Mota So­ares foi o mi­nistro da So­li­da­ri­e­dade e Se­gu­rança So­cial que mais atacou os tra­ba­lha­dores in­de­pen­dentes; que Cristas ficou tris­te­mente cé­lebre pela sua «lei das rendas», é di­fícil acre­ditar nesta sú­bita de­fesa cen­trista do con­tri­buinte. Idem para o PSD, que de tão em­pe­nhado em fazer es­quecer a ter­rível po­lí­tica fiscal de Passos que jus­ta­mente teve como alvo de es­bulho os tra­ba­lha­dores, essa mesma que até há pouco de­fendia como um su­cesso, mais pa­rece o lobo dis­far­çado de ovelha, fa­zendo-se manso para me­lhor apa­nhar a presa.

São os ca­ça­dores fur­tivos. Cui­dado com eles.

 



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