Fretes
Neste semeio de preconceito anti-comunista, adubado nas mais das vezes pelo ataque mais directo ao PCP, de que os últimos dias foram férteis, a ambição da deputada do BE no Parlamento Europeu a guindar-se à presidência do GUE/NGL foi cereja no topo do bolo. O caso faz as delícias de quem farejando razões para atacar o PCP se não conteve no salivar perante a oportunidade. Entre os milhentos pretextos que afanosamente buscam, este tem a vantagem de opor BE e PCP, o que na nomenclatura mediática dominante se ajeita a essa narrativa de fazer de uns vítimas e dos outros algozes, de uns impolutos e dos outros pecaminosos, de uns fofinhos e modernaços em contraponto a carrancudos e conservadores. Nada de novo na forma, ainda que se justifique ir à substância. Não pela rama preconceituosa, pelo recado encomendado à imprensa ainda que acompanhado de um cínico «não comento», pelo «tweet» fretado ou pela zelosa mão de cronistas que poluem o espaço matinal de comentário. Mas pelo que de facto e em substância está em debate.
Pouco conta para a narrativa difundida, na tagarelice anticomunista, que o desenrolar dos acontecimentos sejam vendidos de pernas para o ar, se passe ao lado dessa tentativa do BE, de mãos dadas com outros acompanhamentos, para subverter as regras e princípios de funcionamento que há mais de vinte e cinco anos moldam o funcionamento confederal do Grupo.
Pouco interessa, nas mãos de quem o respeito pela verdade dos factos é coisa que não vende, que há quem justamente se oponha às tentativas de descaracterização do Grupo para o moldar à perspectiva federalista dominante nas instituições da União Europeia e mantenha a linha de afirmação da identidade e independência própria no seio de um grupo que deve funcionar no respeito pela opinião de cada delegação e pelo consenso de decisão.
Pouco releva, para quem vale tudo, os jogos de bastidores e o golpismo de procedimentos, a intriga de umbigo, o sectarismo dos que na sua ambição desmedida se arrogam criticar a quem não se vergue aos seus jogos. O BE, a exemplo do PCP e de mais de duas dezenas de outras forças, é tão só uma componente do Grupo. Não o «dono disto tudo» que se julga ser talvez animado pela promoção e vassalagem mediática que por aí se vê.