Em Julho, Almada é ainda mais a capital nacional do teatro
CULTURA Entre 4 e 18 de Julho realiza-se a 36.ª edição do Festival de Teatro de Almada, um dos mais consagrados da Europa. A programação desenvolve-se essencialmente em Almada, mas estende-se a Lisboa e Cascais.
O melhor teatro do País e do Mundo estará em Almada em Julho
Da programação do festival, apresentada na sexta-feira, 14, na Casa da Cerca, constam 24 criações de autores e companhias nacionais e estrangeiras, em mais de 65 apresentações, e ainda debates, colóquios, exposições, concertos e um curso com o consagrado actor e encenador alemão Hajo Schüler. A personalidade homenageada é o actor e encenador Carlos Avillez, fundador do Teatro Experimental de Cascais e, durante anos, director do Teatro Nacional D. Maria II.
Os espectáculos terão lugar em nove espaços do concelho de Almada (teatros, equipamentos municipais, praças e na Escola D. António da Costa), três de Lisboa (Sala Garrett e Sala Estúdio, ambas do Teatro Nacional D. Maria II, e CCB) e ainda no Teatro Municipal Mirita Casimiro, em Cascais. A programação completa, os horários e os locais dos espectáculos podem ser consultados no sítio da Companhia de Teatro de Almada na Internet, em ctalmada.pt.
O Festival de Teatro de Almada (tal como a companhia que o concebe e suporta) é um caso singular em Portugal: pela dimensão, pela qualidade dos espectáculos, pelo envolvimento da comunidade. Nascido em 1984, cresceu a pulso até se tornar o que hoje inquestionavelmente é: o maior festival de teatro do País e, reconhecidamente, um dos mais importantes da Europa.
Pelos seus palcos passaram milhares de actores, nacionais e internacionais, alguns dos quais deram aí os primeiros e decisivos passos nas suas carreiras. Ali se viu pela primeira vez em Portugal alguns textos fundamentais dos mais consagrados dramaturgos do mundo. Em Almada, graças ao Festival e a décadas de Poder Local Democrático de maioria CDU, formou-se um público de teatro generoso, assíduo e, também, do mais exigente que existe no País.
O Teatro Municipal Joaquim Benite conta com um numeroso e combativo Clube de Amigos e a Companhia foi, este ano, agraciada como Membro Honorário da Ordem do Mérito.
Pensar o mundo
O teatro sempre teve o condão de observar o mundo com olhar crítico, pondo a nu as iniquidades e injustiças da sociedade, e o Festival de Teatro de Almada sempre se assumiu como um espaço de Cultura na acepção de Bento de Jesus Caraça, para quem o homem culto «é aquele que tem consciência da sua posição no Cosmos e, em particular, na sociedade a que pertence». Não se regendo por nenhuma escola estética em particular, o festival sempre soube espelhar as inquietações, aspirações e lutas do nosso tempo e a edição deste ano não será excepção.
Números Provisórios, do CCTAR, aborda o problema da imigração e da exploração que lhe está tantas vezes associada; As Três Sozinhas, do Teatro Meia Volta e Depois à Esquerda Quando Eu Disser, realça a luta das mulheres pela igualdade; Guerra e Terebentina, da belga NeedCompany, fala da guerra.
E depois há Brecht, que não é só um dos mais reconhecidos e adaptados dramaturgos do mundo, como é um feroz crítico do capitalismo e da sua expressão mais violenta, o nazi-fascismo. A Boda, encenada por Ricardo Aibéo (associação Sul), e Terror e Miséria, que tem encenação de António Pires e conta com as interpretações de Adriano Luz e Inês Castel-Branco, entre outros (numa criação da Ar de Filmes/ Teatro do Bairro), são as duas propostas do autor.
No ano em que se assinala o centenário do nascimento de Primo Levi, a Companhia de Teatro de Almada estreia no festival a primeira adaptação portuguesa da obra clássica do escritor italiano, resistente antifascista e sobrevivente do Campo de Concentração de Auschwitz, Se Isto é um Homem. Rogério de Carvalho assina a adaptação e a encenação e os arquitectos que desenharam o hoje denominado Teatro Municipal Joaquim Benite, Egas Vieira e Manuel Graça Dias (este último recentemente falecido) conceberam a cenografia.
Como se pode ler no texto de apresentação do programa, da autoria do director do Festival e da Companhia de Teatro de Almada, Rodrigo Francisco (ausente da sessão por se encontrar a recuperar de um acidente rodoviário), a edição de 2019 será lembrada como aquela «em que veio o Robert Wilson e a Isabelle Hupert», que trazem Mary Said What She Said, que dramatiza as últimas horas de vida de Mary Stuart, rainha da Escócia, executada em 1587.