O jeitinho

Manuel Gouveia

Vocês podiam dar um jeitinho, dizem-nos alguns amigos bem intencionados, justamente preocupados com os resultados eleitorais do PCP e da CDU, reconhecendo justamente que – em parte – eles se devem à violenta campanha mediática contra o Partido e de distorção da realidade.

Quando tentamos perceber o que seria esse jeitinho, dão exemplos como os da Venezuela e da Coreia. Em vez da frontal e clara solidariedade com a revolução bolivariana, podíamos dizer qualquer coisa do estilo «estamos solidários com todos os que na Venezuela lutam pela democracia e pelo direito à auto-determinação», que é coisa que até estamos, e escusávamos de falar em «agressão imperialista» ou «forças revolucionárias» e principalmente, de expressar solidariedade com aqueles que são vítimas da agressão imperialista e das campanhas mediáticas de falsificação. Sobre a Coreia, sugerem-nos que reconheçamos que aquilo é uma ditadura, e até teríamos uma boa justificação, para enganarmo-nos a nós próprios, repetindo baixinho e para dentro, que afinal, para um marxista, todos os Estados são uma ditadura.

Com um jeitinho, saía alguma pressão de cima, e defendíamos uns votitos. Nestas alturas é preciso ter alguma paciência e recordar que estes nossos amigos até são bem intencionados. E não responder logo à bruta, do tipo «os gajos da PIDE também só queriam que déssemos um jeitinho, que confirmássemos o que eles já sabiam, e esse era o primeiro passo para borrar a pintura toda...» ou «para fazer essa figura já cá anda o Bloco».

E com calma e paciência explicar – novamente – a dimensão internacional do processo de emancipação do trabalho, bem como as tarefas, em cada país, daqueles que se propõem resistir ao imperialismo e superar o capitalismo, sendo que um é a fase final e última do outro.

Sem esquecer que mais vale perder uns votos que trair. Porque a traição é mais que uma derrota, é a aniquilação.

 



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«O Estado é bem-vindo no capital dos CTT»

O Estado gere mal, é ineficiente, tem clientelas. O Estado falha dia, noite e nos intervalos. O Estado estraga tudo onde se mete e devia deixar a sociedade civil e a iniciativa privada tratarem dos negócios. O Estado deve regular, de preferência o mínimo possível.

Já todos ouvimos concepções destas e as suas diversas declinações, a propósito dos serviços públicos, do sector empresarial do Estado ou das privatizações, apresentadas como ciência inquestionável.

É por isso que é deliciosamente irónica a entrevista de Manuel Champalimaud, presidente do grupo empresarial com o mesmo nome e principal accionista dos CTT, a quem o Expresso do passado fim de semana deu o título que encima este Actual.

«O Estado», diz Champalimaud, «podia ser um accionista como qualquer outro (...) estando no conselho perceberia as dificuldades de gerir uma operação como esta e teria de ter uma atitude consentânea. (...) A vantagem (...) seria a transparência e a criação de condições económicas para a subsistência da operação. Porque de duas uma: ou não querem perder dinheiro – neste caso dos contribuintes – e preocupam-se, como qualquer outro accionista, em ter uma gestão do negócio sã, ou, se só olharem para o lado do consumidor, têm de criar apoios e assumir que é um custo que querem suportar.»

Não é maravilhoso? Afinal, o tal Estado gordo e metediço serviria muito bem para «a subsistência da operação» de Champalimaud, desde que continuasse o capital a mandar e o Estado se limitasse a injectar dinheiro. Agora que estão à vista de todos as consequências desastrosas da privatização, ei-los a clamar pela intervenção do Estado.

A solução de enterrar dinheiro público em empresas privadas está mais do que testada. Não serve, é errada, não se deve repetir. O que é necessário é recuperar o controlo público dos CTT, salvar a empresa, o serviço público postal público e universal e os postos de trabalho.

 

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