Futebol, negócio, populismo
No comunicado do Comité Central do PCP afirma-se que estamos perante a promoção de amplas operações de alienação, bem como de favorecimento de concepções reaccionárias e fascistas que são propagandeadas e toleradas, estimulando a prática da violência e a intimidação.
É preciso combater fenómenos populistas no futebol
Nesta imensa operação emerge de forma esmagadora o futebol, que há muito passou a ser uma actividade económica relevante e um espectáculo que arrasta multidões. O futebol é hoje «um mundo à parte» onde vale quase tudo.
No nosso país assistimos ao desenvolvimento acelerado deste mercado (38 equipas profissionais e mais de 100 mil praticantes) nas suas múltiplas componentes: sociedades anónimas desportivas que abrangem todas as divisões, com accionistas e capitais muitas vezes de origem desconhecida. Juntam-se agentes e empresários, patrocinadores, gestores/consultores de imagem e toda uma panóplia de especialistas. Mais recentemente ganharam extraordinária importância os comentadores e analistas, enquadrados por uma outra nova figura do mundo do futebol, os directores de comunicação.
Os jogadores e os técnicos, quase proibidos de falar em público – e quando o fazem são enquadrados pelo guião das estratégias de comunicação –, deixaram de ser os principais protagonistas, para darem lugar aos «especialistas»: conhecidos de toda a gente, saltam da política para os programas de televisão, rádio e colunas nos jornais desportivos ou fazem o percurso inverso.
Três jornais desportivos diários, a somar aos digitais, três canais de televisão dos grandes clubes, cinco canais de notícias que dedicam grande parte da sua programação ao futebol, a que se juntam os programas e noticiários das rádios, alimentam o mercado. Mas a overdose mediática não é coisa nova: já em 2014 os quatro canais de notícias dedicaram ao futebol, em apenas dois meses, 1153 horas. As audiências do Europeu ou do Mundial duplicam as dos Jogos Olímpicos; os programas sobre futebol e a transmissão de jogos esmagam audiências e são de interesse estratégico para o negócio da publicidade.
Rejeitar valores antidemocráticos
Os três grandes clubes nacionais têm milhões de adeptos, centenas de milhares de associados e muitas centenas de filiais, casas e núcleos. As claques (legalizadas ou não), os grupos informais ou casuais e os que por isso se fazem passar têm hoje um papel que vai muito para além do apoio às equipas: com instalações e meios próprios, movimentam muito dinheiro; as principais têm dirigentes a tempo inteiro com elevados rendimentos e gozando de total impunidade nos clubes.
Sendo verdade que não se podem medir todas pela mesma bitola, muitas têm no seu ADN o culto da violência, do ódio, da xenofobia e do racismo. À violência verbal juntam-se os episódios de violência física nos recintos desportivos, de que o assalto à Academia de Alcochete é o mais recente, e particularmente grave.
É neste quadro que os fenómenos de populismo têm pasto para crescer e se desenvolver impunemente e com milhares de seguidores, que põem de lado divergências políticas, ideológicas e outras para seguirem o líder na sua guerra contra outros clubes e líderes. No mundo da bola as regras e valores comummente aceites na sociedade não se aplicam. Ali as regras são outras.
Aspecto que deve merecer particular atenção reside na massificação e na aceitação destes valores por largas massas da população, em especial os mais jovens. E também o papel cada vez mais visível e identificável das organizações de extrema-direita no mundo do futebol e não apenas nas claques e grupos chamados casuais.
As consequências disto vão muito para além do futebol e devem merecer cuidada atenção e o indispensável combate – que a opção clubista não pode impedir – por parte de todos os que lutam pelos valores da liberdade e da democracia.