6 de Julho

Luís Carapinha

Cresce a volatilidade e a incerteza

A guerra comercial dos EUA contra a China é agora uma realidade e ninguém sabe até onde irá. Depois de meses de retórica agressiva, a Casa Branca ignorou os princípios de compromisso desenhados em três rondas de conversações bilaterais, implementando desde sexta-feira taxas agravadas sobre a importação de 34 mil milhões de dólares de produtos chineses. Abre-se uma nova página e Trump ameaça elevar a parada tarifária até aos 500 mil milhões de dólares, em caso de retaliação da China. Pequim fez questão de sublinhar que não deu o primeiro tiro, antes de confirmar a aplicação imediata de medidas proporcionais de resposta. Uma espiral da guerra comercial entre as duas maiores economias mundiais é susceptível de afectar as cadeias de produção industrial a nível global, com reflexos profundos no comércio internacional e economia mundial.

Para a elite norte-americana uma realidade perturbadora tem vindo a desvelar-se. Como nota um articulista da Bloomberg, a «escalada da rivalidade económica e militar» entre os dois países representa na essência um «choque entre dois sistemas divergentes» com «visões sobre o mundo e aspirações nacionais marcadamente divergentes». No cerne do reforço da política de contenção da China que une cada vez mais a classe dominante dos EUA, apesar de sobressaltadas diferenças de método e táctica, vislumbram-se as inquietações do imperialismo norte-americano com a ascensão vertiginosa da capacidade económica e tecnológica da China e a possibilidade do país dirigido pelo PCC colocar no futuro em risco o domínio dos EUA em sectores chave para a sua hegemonia. O alvo específico da guerra comercial de Washington é o sector emergente de alta tecnologia chinesa e o plano estatal estratégico «Made in China 2025» que visa dotar o país de capacidade industrial de ponta própria em 10 grandes áreas, das energias renováveis e novos materiais, à biotecnologia e robótica. Os EUA procuram abalar a influência da China na economia mundial, contrariar a emergência do yuan e escorar o papel dominante do dólar, apostando nos factores de desgaste interno num momento crítico da transformação do padrão do desenvolvimento da China. Trump alude demagogicamente ao défice recorde do comércio com a China. Mas, para além de causas estruturais inerentes ao processo de estagnação imperialista, há cálculos que mostram que o bolo das exportações dos EUA para a China e das vendas de empresas norte-americanas neste país ostenta ainda um saldo global favorável. Esta é também uma guerra de nervos, em que sabendo-se que todos sairão a perder, a questão é saber quem perderá decisivamente. Para a China, o peso das exportações é hoje menor, com o mercado e consumo internos a assumir preponderância no crescimento. Um alto-funcionário chinês sublinhou a «maior resiliência da economia de mercado socialista» no presente braço-de-ferro. E o PCC, reafirmando a aposta na abertura económica, leva à prática as directrizes do XIX Congresso com o acento na construção partidária e afirmação da identidade ideológica marxista.

Trump semeia ventos, não poupando aliados-rivais (que o digam a Alemanha, UE e Japão). Propõe-se não só alterar as «regras do jogo», mas virar a própria mesa. A OMC já não serve perante as mudanças na correlação de forças mundial. Cresce a volatilidade e incerteza, enquanto se avolumam os dilemas estruturais do capitalismo, da estagnação da produtividade e rentabilidade à dívida insustentável. A crise capitalista anuncia novas tempestades.

 



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