A incessante luta pela soberania dos povos da América Latina

SOLIDARIEDADE O CPPC promoveu na quinta-feira, 7, uma sessão de solidariedade com os povos da América Latina, na qual participaram representantes de embaixadas e organizações políticas de países da região.

O imperialismo pretende subjugar os países latino-americanos

O salão da Casa do Alentejo, em Lisboa, voltou a acolher uma iniciativa do movimento da paz e solidariedade, desta feita relacionada com a América Latina e Caraíbas, cujos povos protagonizam empolgantes páginas da sua luta emancipadora. Como ficou evidente em muitas das intervenções proferidas (e até nas canções interpretadas por Joana Manuel e Rui Galveias, dos El Sur) este combate não é de hoje, antes marca a vida dos povos latino-americanos desde há séculos: primeiro contra o colonialismo espanhol e português, sobretudo; depois face ao imperialismo norte-americano da Doutrina Monroe e do Plano Condor, marcado por ocupações militares, bloqueios e ingerências, ferozes ditaduras e neoliberalismo.

Como não ter presente a Unidade Popular chilena, esmagada sob as botas cardadas de Pinochet; a Nicarágua sandinista e, décadas antes, a luta sem quartel travada por Augusto César Sandino contra a presença no país de fuzileiros norte-americanos; a invasão de Granada; o assassinato do Che; a revolução mexicana de Villa e Zapata; a revolução cubana e o bloqueio que se lhe seguiu? A célebre frase do presidente mexicano Porfírio Diaz (1830-1915) só peca por ser geograficamente limitada: «Pobre México, tão longe de Deus e tão perto dos Estados Unidos.»

Em consequência destas realidades, nesta região do globo registam-se historicamente profundas desigualdades sociais, entre uma oligarquia minoritária e opulenta e uma imensa maioria de trabalhadores e povos indígenas profundamente empobrecidos e mantidos no mais completo obscurantismo. Neste processo de séculos as oligarquias alinham com o imperialismo, de quem no essencial dependem, tornando a luta pela emancipação social indissociável da que se trava pela efectiva independência nacional.

É este pano de fundo que ajuda a explicar os processos progressistas que desde o início desde século marcam a região, desde logo a «revolução bolivariana» na Venezuela iniciada com a vitória eleitoral de Hugo Chávez faz este ano duas décadas. As forças progressistas também alcançaram êxitos significativos no Brasil, Bolívia, Equador, Argentina, Nicarágua, El Salvador, Uruguai e vários outros estados. Com diferenças entre si, ao nível quer da natureza dos processos e do seu alcance, em todos estes países se procurou enfrentar os grandes problemas criados por décadas – séculos! – de dependência e exploração. Cuba socialista foi desde o princípio um fiel aliado e um farol inspirador. E assim continua.

Unidade e luta

Nas intervenções proferidas a partir da mesa (onde estavam Ilda Figueiredo e Luís Carapinha, do CPPC, e Augusto Fidalgo, da Associação de Amizade Portugal-Cuba), foram valorizados os impressionantes avanços alcançados naqueles países durante a vigência dos governos progressistas. Na Venezuela, por exemplo, onde as forças bolivarianas resistem à ingerência externa e à desestabilização interna, o analfabetismo foi erradicado e mais de dois milhões de residências foram entregues a famílias pobres e trabalhadoras. Também o Brasil de Lula e Dilma saiu do mapa mundial da fome e da pobreza extrema, para onde reentrou após o golpe em curso desde há dois anos, que colocou na presidência do país, ilegitimamente, Michel Temer.

A acção do imperialismo procura voltar a fazer da América Latina aquilo que foi durante décadas: o «pátio das traseiras» dos Estados Unidos. A derrota eleitoral das forças progressistas na Argentina, os golpes no Brasil, Honduras e Paraguai, a proliferação de bases militares norte-americanas no sub-continente, o papel da Colômbia e a sua aproximação à NATO contribuem objectivamente para esse propósito. O desmembramento dos processos de integração regional progressista e soberana, particularmente da Celac e da Unasul, procurando substituí-la pela OEA – que é conhecida na região por «ministério das colónias» – é parte integrante deste objectivo.

Sendo a situação hoje menos favorável do que era há três anos, seria um erro dar por derrotada esta vaga de processos emancipadores. Não só porque alguns dos mais importantes ainda subsistem e avançam, como também porque a resistência dos povos permanece pujante, constituindo a melhor garantia de que a América Latina não voltará a um passado de má memória.

Essa certeza foi reforçada com as intervenções dos embaixadores de Cuba e Venezuela, Mercedez Martínez e Lucas Rincón, e dos representantes de partidos e organizações políticas brasileiras, nomeadamente do Partido dos Trabalhadores, Partido Comunista do Brasil e Colectivo Andorinha. Denunciando ingerências, chantagens e bloqueios e, no caso dos brasileiros, alertando para os efeitos imediatos do golpe em curso no seu país, foi sobretudo a confiança na unidade e luta dos seus povos que sobressaiu das suas palavras. Unidade e luta que, garantiu-se, prosseguirão «até à vitória, sempre».

Música, poesia, angústias e esperanças

Antes dos discursos foi a música a transportar para a América Latina as dezenas que pessoas que participaram na sessão de solidariedade do passado dia 7. E quem melhor para representar as angústias e esperanças dos latino-americanos do que os poemas e canções dos chilenos Pablo Neruda, Victor Jara e Violeta Parra, trazidos pela guitarra de Rui Galveias e a voz de Joana Manuel, dois dos cinco elementos do grupo El Sur?

A primeira canção que interpretaram, El Pueblo, um poema de Neruda (incluído no magistral Canto Geral) musicado por Parra, é em si mesma um resumo perfeito do que as intervenções a seguir demonstrariam: «Paseaba el pueblo sus banderas rojas/ Y entre ellos en la piedra que tocaron/ Estuve en la jornada fragorosa/ Y en las altas canciones de la lucha.// Vi como paso a paso conquistaban./ Sólo su resistencia era camino,/ Y aislados eran como trozos rotos/ De una estrella, sin bocas y sin brillo.// Juntos en la unidad hecha en silencio,/ Eran el fuego, el canto indestructible,/ El lento paso del hombre en la tierra/ Hecho profundidades y batallas.// Eran la dignidad que combatía/ Lo que fue pisoteado, y despertaba/ Como un sistema, el orden de sus vidas/ Que tocaban la puerta y se sentaban/ En la sala central con sus banderas.»




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