Com factos me enganas
O tratamento mediático da posição política do PCP sobre a possibilidade legal de provocar a morte antecipada gerou reacções acesas e muitas incompreensões. Mas para perceber a origem dessas incompreensões é preciso olhar para a forma como essa posição foi tratada pela comunicação social dominante. Ela foi apresentada numa conferência de imprensa cuja emissão não mereceu um único directo em qualquer dos quatro canais de televisão informativos.
A partir daí, as declarações de João Oliveira foram sendo integradas nos noticiários de forma parcial e, mesmo, abusivamente truncadas. Numa matéria que se reveste de elevada complexidade (como é o caso), o mais incompreensível é a forma leviana como se manipula uma posição própria, reduzindo-a a uma ou outra formulação descontextualizada. Assim, de facto, fica difícil compreender o que o PCP tem a dizer.
Qualquer critério editorial que possa ser agitado para justificar tal opção esbarra na realidade, já que foi dado amplíssimo espaço a outros para apresentarem e justificarem a sua posição sobre o tema na imprensa, o que não aconteceu com o PCP: veja-se os casos de Cavaco Silva e Passos Coelho. Pelo contrário, o Correio da Manhã, por exemplo, escreveu «Igreja e PCP juntos contra a eutanásia», tentando fazer crer que, por o sentido ser o mesmo, as posições são idênticas.
Um texto publicado pelo Diário de Notícias no passado domingo pode ajudar a explicar a motivação por trás desta deliberada manipulação. Escreveu o jornal: «Extremos tocam-se. PCP e CDS muitas vezes de acordo.»
Sendo factual que houve muitas votações no Parlamento em que os deputados do PCP votaram no mesmo sentido do que os do CDS, podia dizer-se o mesmo em relação a qualquer outra bancada parlamentar. Na verdade, o que os dados objectivos mostram é uma realidade oposta ao que o artigo sugere: nenhum outro partido vota tão poucas vezes no mesmo sentido do que o CDS do que o PCP e o PEV. A tentativa de colar a posição do PCP sobre a eutanásia ao CDS e a um suposto conservadorismo foi tão longe que chegou ao ponto de querer retirar essa conclusão do facto de o PCP e o CDS votarem no mesmo sentido votos de pesar pela morte de António Arnaut ou Júlio Pomar ou de saudação à participação de desportistas portugueses em provas internacionais (que, já agora, foram aprovados por unanimidade).
O Diário de Notícias quis fazer um número recorrendo à estatística e teve que martelar os dados. Mas fez mais, ignorou que a actuação de um grupo parlamentar não se limita ao número de vezes que vota para um lado ou para outro, mas depende do conteúdo concreto de cada um desses votos.
Só no último mês, para usar a mesma janela temporal que o jornal, foram a votos matérias determinantes para a vida de milhões de trabalhadores portugueses, como a redução do horário de trabalho para as 35 horas para todos. Nessa votação foi o PS que ficou ao lado do PSD e do CDS. Só um profundo anticomunismo explica a campanha mediática de ocultação, deturpação e mentira em torno da posição do PCP.