PCP solidário com profissionais de saúde exige do Governo inversão de rumo

LUTA O PCP en­tende que «não são ad­mis­sí­veis mais adi­a­mentos» na res­posta às re­cla­ma­ções dos vá­rios pro­fis­si­o­nais de saúde, exi­gindo do Go­verno uma ur­gente mu­dança de ati­tude.

Há que apostar na va­lo­ri­zação pro­fis­si­onal, so­cial e re­mu­ne­ra­tória

«O Go­verno PS não pode con­ti­nuar a adiar a ne­go­ci­ação com as es­tru­turas re­pre­sen­ta­tivas dos tra­ba­lha­dores e a to­mada de me­didas para res­ponder às justas rei­vin­di­ca­ções de todos os pro­fis­si­o­nais de saúde», su­bli­nhou na pas­sada sexta-feira, 11, a de­pu­tada Carla Cruz.

Para a par­la­mentar do PCP, que fa­lava em de­bate de ac­tu­a­li­dade sus­ci­tado pela sua ban­cada sobre po­lí­tica de saúde, cen­trado no­me­a­da­mente na ca­rência de pro­fis­si­o­nais e nas suas rei­vin­di­ca­ções, cada dia que o Go­verno pro­tela a re­so­lução desses pro­blemas e as­pi­ra­ções é «mais um dia que con­tribui para a fra­gi­li­zação e di­mi­nuição da res­posta pú­blica», «para o aban­dono e saídas ex­tem­po­râ­neas de muitos pro­fis­si­o­nais de saúde do SNS».

Em causa está a va­lo­ri­zação das car­reiras e res­pec­tivas gre­lhas sa­la­riais, o des­con­ge­la­mento da pro­gressão das car­reiras e a con­tra­tação de pro­fis­si­o­nais, ra­zões que têm le­vado – a par da de­fesa do SNS e dos utentes –, os pro­fis­si­o­nais de saúde (mé­dicos, en­fer­meiros, téc­nicos su­pe­ri­ores de saúde, téc­nicos su­pe­ri­ores de di­ag­nós­tico e te­ra­pêu­tica, as­sis­tentes téc­nicos e as­sis­tentes ope­ra­ci­o­nais) a en­cetar pro­cessos de luta.

«O que se exige é a con­tra­tação de pro­fis­si­o­nais e a in­te­gração de todos os tra­ba­lha­dores com con­tratos in­di­vi­duais de tra­balho em con­tratos de tra­balho em fun­ções pú­blicas com a cor­res­pon­dente in­te­gração numa car­reira com vín­culo pú­blico», in­sistiu Carla Cruz, de­fen­dendo uma «aposta clara e sem ti­bi­ezas na va­lo­ri­zação pro­fis­si­onal, so­cial e re­mu­ne­ra­tória dos pro­fis­si­o­nais de saúde».

Rol de pro­blemas
Às crí­ticas do PCP e de ou­tras ban­cadas à es­querda res­pondeu o mi­nistro da Saúde mi­ti­gando as di­fe­renças e si­tu­ando-as so­bre­tudo no plano da ve­lo­ci­dade e da in­ten­si­dade no in­cre­mento das me­didas. «Não é pos­sível re­solver tudo ao mesmo tempo», «não se con­segue re­cu­perar em dois anos» um sis­tema que foi pro­fun­da­mente «de­la­pi­dado», alegou Adal­berto Campos Fer­nandes.

«Quando há tempos de es­pera ele­vados no acesso a con­sultas e ci­rur­gias, en­cer­ra­mento de camas nos hos­pi­tais porque não há pro­fis­si­o­nais de saúde, rup­tura no fun­ci­o­na­mento do ser­viço, não es­tamos a falar de ve­lo­ci­dade nem de in­ten­si­dade, es­tamos a falar de pro­blemas con­cretos que afectam os utentes e os pro­fis­si­o­nais e que exigem res­postas efi­cazes», con­trapôs a de­pu­tada co­mu­nista Paula Santos.

Sem deixar de re­co­nhecer que os pro­blemas no SNS são es­tru­tu­rais, vêm de há muito e é pe­sada a res­pon­sa­bi­li­dade que neles têm PSD e CDS, a ban­cada co­mu­nista sus­tentou con­tudo que isso não pode servir de álibi para que não lhes seja dada res­posta.

Re­jei­tado pela ban­cada co­mu­nista foi, no­me­a­da­mente, o ar­gu­mento da falta de re­cursos para jus­ti­ficar a não con­tra­tação de mais pro­fis­si­o­nais de saúde. «Quando há um pro­blema com a banca – basta um as­sobio –, há toda a dis­po­ni­bi­li­dade do Go­verno para lhe res­ponder», ob­servou a vice-pre­si­dente da ban­cada do PCP, in­con­for­mada por o Exe­cu­tivo dizer que não é pos­sível va­lo­rizar as car­reiras dos pro­fis­si­o­nais de saúde mas já ser «pos­sível manter a ob­sessão com o dé­fice».

«Não é pos­sível ga­rantir ade­quadas con­di­ções de tra­balho mas é pos­sível, ano após ano, trans­ferir mi­lhões e mi­lhões de euros de juros da dí­vida, porque se in­siste em não querer re­ne­go­ciar a dí­vida», in­sistiu, não acei­tando que o Go­verno alegue a ine­xis­tência de con­di­ções para res­ponder aos pro­blemas.

Do que se trata é de «op­ções po­lí­ticas», cla­ri­fi­caram os de­pu­tados co­mu­nistas, que exi­giram a va­lo­ri­zação das fun­ções so­ciais do Es­tado, ade­quado in­ves­ti­mento no SNS.

O bico de obra da falta de pes­soal

Um dos pro­blemas que afecta o SNS é a falta de pro­fis­si­o­nais. O nú­mero exis­tente é cla­ra­mente in­su­fi­ci­ente para as ne­ces­si­dades, não obs­tante o re­co­nhe­ci­mento geral quanto ao seu papel ful­cral na pres­tação de cui­dados de qua­li­dade e para o ade­quado fun­ci­o­na­mento dos ser­viços. Carla Cruz deu al­guns nú­meros e lu­gares con­cretos que ilus­tram essa di­fícil re­a­li­dade, entre os muitos exem­plos que há de Norte a Sul do País.

E co­meçou pelo Centro Hos­pi­talar de Trás-os-Montes e Alto Douro onde a ca­rência de as­sis­tentes ope­ra­ci­o­nais atinge um nível tal que estes pro­fis­si­o­nais, sa­li­entou, «são obri­gados a tra­ba­lhar 12 dias se­guidos, sem folgas».

De falta de as­sis­tentes ope­ra­ci­o­nais se queixa também o Centro Hos­pi­talar Uni­ver­si­tário do Al­garve entre 90 a 100, es­pe­ci­ficou –, re­gião onde é sen­tida também a ca­rência de téc­nicos su­pe­ri­ores de di­ag­nós­tico e te­ra­pêu­tica e de téc­nicos su­pe­ri­ores de saúde, tanto nos cui­dados hos­pi­ta­lares como nos cui­dados pri­má­rios, caso, por exemplo, do Centro de Saúde de Lagoa, uni­dade onde faltam também te­ra­peutas da fala, ocu­pa­ci­o­nais e nu­tri­ci­o­nistas.

Já quanto à falta de en­fer­meiros, só no Hos­pital de S. João esse nú­mero é de 158; 60 no Centro Hos­pi­talar Ton­dela–Viseu; 150 na Uni­dade Local de Saúde do Norte Alen­te­jano (Por­ta­legre); 300 no Centro Hos­pi­talar Uni­ver­si­tário de Coimbra e 160 na Guarda.

Neste quadro de ca­rên­cias en­tram também os mé­dicos, como na pe­di­a­tria do Hos­pital de Évora, em vá­rios ser­viços do Hos­pital do Li­toral Alen­te­jano e nos ser­viços de psi­qui­a­tria, car­di­o­logia, ci­rurgia e or­to­pedia do Hos­pital de Bar­celos.

Mas a falta de pro­fis­si­o­nais não atinge apenas o SNS. «Afecta, de igual modo, o Ins­ti­tuto de Emer­gência Mé­dica», apontou Carla Cruz, re­fe­rindo que neste ins­ti­tuto são mais de 300 os tra­ba­lha­dores em falta.

O que re­sulta desta es­cassez de pro­fis­si­o­nais é o «au­mento dos ritmos de tra­balho, maior can­saço, exaustão e des­mo­ti­vação», le­vando ainda à «di­mi­nuição de pro­fis­si­o­nais por turno», ad­vertiu Carla Cruz, que as­si­nalou por fim que tal si­tu­ação tem re­flexos quer no «au­mento do tempo de es­pera para con­sultas e ci­rur­gias» quer no «nú­mero de utentes sem mé­dico e en­fer­meiro de fa­mília».

O ver­da­deiro in­tuito de PSD e CDS

Das in­ter­ven­ções do PSD e do CDS no de­bate ficou claro que o ob­jec­tivo pre­ten­dido é atacar o SNS para o des­cre­di­bi­lizar e, por essa via, be­ne­fi­ciar os in­te­resses pri­vados, o ne­gócio que existe na saúde.

«Quase tudo pi­orou nos úl­timos anos», os «por­tu­gueses estão cada vez mais do­entes», «trans­for­maram o SNS no Ser­viço Na­ci­onal da Do­ença», vo­ci­ferou, por exemplo, o de­pu­tado do PSD Ri­cardo Ba­tista Leite, num dis­curso cí­nico e de­ma­gó­gico.

Só que o cur­rí­culo das ban­cadas à di­reita do he­mi­ciclo não per­mite outra lei­tura que não seja a de que, por de­trás de tais crí­ticas, o que se es­conde é o de­sejo in­con­fes­sado de poder voltar a exe­cutar a po­lí­tica que apli­caram quando es­ti­veram no go­verno. «Op­ções» que ti­veram por único ob­jec­tivo o «des­man­te­la­mento do SNS», lem­brou Paula Santos, pondo a nu a hi­po­crisia do ac­tual dis­curso das ban­cadas à di­reita da tri­buna do Par­la­mento.




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