Jerónimo desafia Costa a passar «das palavras aos actos» na resposta aos trabalhadores
SALÁRIOS É com preocupação que o PCP vê o atraso do Governo na resposta a problemas transversais aos trabalhadores. Daí o apelo ao primeiro-ministro para menos modorra e mais acção.
Urge alterar modelo económico assente nos baixos salários
LUSA
«Quando é que passamos das palavras aos actos?», foi o repto lançado no passado dia 9 por Jerónimo de Sousa a António Costa em pleno debate quinzenal, a propósito dessa tardia solução para problemas sentidos pelos trabalhadores.
No passado dia 9, foi uma vez mais pela voz do Secretário-geral do PCP que as matérias relacionadas com o mundo laboral vieram para o centro do debate parlamentar.
Com os ecos do 1.º de Maio ainda bem presentes, em particular as exigências nele expressas pelos milhares e milhares de trabalhadores que saíram à rua em resposta ao apelo da CGTP-IN – essa «magnífica jornada de luta», assim caracterizou as celebrações –, o líder comunista aludia às importantes questões que carecem de resposta quer do Governo quer da Assembleia da República, como sejam a alteração da legislação laboral, o aumento dos salários ou a redução dos horários.
Por melhor salário
Aumento geral dos salários que surge logo à cabeça desse grupo de prioridades, mas igualmente do «salário mínimo nacional para 650 euros a partir de Janeiro de 2019», exigência que o PCP acompanha, reiterou o líder comunista.
Essa é, de resto, do seu ponto de vista, uma «exigência mais do que justa, tendo em conta a desequilibrada evolução da distribuição do Rendimento Nacional e o modelo económico assente nos baixos salários».
Jerónimo de Sousa não hesitou, aliás, em pôr o dedo na ferida ao lembrar que enquanto os «salários reais subiam umas décimas em cada um dos últimos anos, a riqueza dos 25 mais ricos de Portugal crescia, em apenas dois anos – 2016 e 2107 – 26,9%». Mais, prosseguiu, «só as empresas do PSI 20 [principal índice do mercado de capitais], em 2017, tiveram uma subida média de lucros de 12% em relação a 2016».
Realidade esta que o responsável comunista lamentou e que na sua óptica não é dissociável também da «grave ofensiva dos últimos anos desencadeada contra as leis laborais».
António Costa respondeu que «em 2016, 2017 e 2018 o SMN subiu 15% e que nos últimos dois anos o conjunto dos salários acima do SMN subiu 4%», defendendo que nos «últimos anos os actos têm traduzido as palavras» e que «há uma melhoria do rendimento efectivo dos trabalhadores».
Falou ainda de medidas como o «descongelamento da contratação colectiva» e, no público, da «eliminação de cortes nos vencimentos e complementos», da «reposição das 35 horas e dos feriados que tinham sido cortados».
Procurou assim valorizar os «avanços», salientando que antes o que havia era «recuo», estabelecendo a comparação com o governo do PSD/CDS. «Não ficámos a marcar passo, avançámos e temos vindo a avançar», referiu.
Melhorar a vida
Só que a redução do horário de trabalho para as 35 horas não pode confinar-se ao sector público e deve estender-se a todos os trabalhadores, sublinhara antes Jerónimo de Sousa. «É tempo de ter outra consideração e resposta» a essa «justa exigência», «neste tempo marcado por novos avanços científicos e tecnológicos», frisou, defendendo que tais avanços não podem servir apenas como «instrumento de acumulação de lucros, mas a oportunidade de melhorar as condições de vida e de trabalho, reduzir a penosidade do trabalho, alargando o direito ao descanso, à presença na família, ao lazer e à cultura».
As subidas nos salários estão longe de corrigir ou equilibrar a tremenda desigualdade que persiste na distribuição da riqueza. Por assim ser, o dirigente comunista fez questão de lembrar ao chefe do Governo que este já admitiu que «não há economia sustentável suportada em salários baixos». Pelo que, concluiu, «não basta constatar e afirmar» o problema, são precisas «de facto, medidas concretas».