Cortes de Lamego

Henrique Custódio

As míticas Cortes de Lamego de 1143 – que Alexandre Herculano demonstraria serem falsas e inventadas por um monge de Alcobaça, para legitimar a reconquista da independência de Portugal, em 1640 – parecem ter inspirado a escolha da cidade de Lamego para o 27.º Congresso do CDS, realizado nesta cidade no fim-de-semana passado.

O ímpeto, algo (re)fundacional, que Assunção Cristas imprimiu aos seus discursos, criando uma secção de «senadores» (onde arrumou Adriano Moreira e correlativos), bradando que NADA É IMPOSSÍVEL! e assumindo uma guerreira ambição de ser o maior partido da direita em Portugal nas próximas eleições gerais, parece convocar a líder populista da vizinhança, a Maria da Fonte minhota, já não para reivindicar o sepultamento dos mortos nas igrejas, mas para atrair à missa do CDS a maioria do dito «eleitorado de direita».

A religião seria, aliás, um dos focos do congresso pela voz de Nuno Melo (este homem nunca desilude), que logo no sábado a declarou «uma coisa muito séria» e pôs o auditório em pias ovações quando garantiu, tonitroante tá bem de ver, que «com a religião não se brinca!». Isto a propósito de algo bastante confuso metendo uma das irmãs Mortágua do BE, a ponte 25 de Abril e o Cristo-Rei. Seja como for, quase um milagre de oratória, a temperar o rocambolesco da alocução.

Assunção Cristas declarou da tribuna que «para sermos a primeira escolha dos portugueses» há que ter em conta que «sou [ela própria] a alternativa do centro-direita», ribombâncias que não aqueceram a plateia, que apenas agitou bandeiras, se pôs em pé e gritou CDS!!! quando a mesma Cristas anunciou Nuno Melo para chefiar a representação europeia do partido. Nesse ponto, o Nuno levantou-se com a rapidez dum sempre-em-pé e ovacionou-se com os primeiros aplausos entusiasmados que congregou na assistência. Nem Cristas, na apoteose final, imitaria esta animação, vá-se lá saber porquê, dado o unânime entusiasmo à volta da líder transmitido incansavelmente pelos congressistas da ribalta.

Uma coisa é certa: Cristas teve o seu ponto alto na curta carreira política (quiçá da sua vida política), foi anunciada como FUTURA PRIMEIRA-MINISTRA DE PORTUGAL!!! e festejada como se tivesse acabado de ser eleita. Isso já ninguém lhe tira.

Com frases do tipo «o futuro é aqui!» Assunção Cristas procurou galvanizar a assistência e disfarçar o que era evidente – que o CDS (que também se libertou do «PP» herdado de Monteiro e Portas) ambiciona tornar-se «maior» à custa do seu parceiro natural, o PSD, não hesitando, para isso, em advertir que «ninguém é dono dos votos!».

Deixem-nos brincar às Cortes de Lamego.




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