Até a bola
O treinador da selecção nacional de futebol do Brasil, conhecido por «Tite», anunciou que a equipa não fará a tradicional visita ao Presidente da República em ano de Campeonato do Mundo de Futebol (esta edição será na Rússia) por uma razão clara: o clima de corrupção que se vive no imenso país sul-americano.
«Algo vai mal no reino do Brasil» quando a selecção nacional de futebol toma posição política clara contra o presidente Michel Temer, que – anote-se – está no cargo graças a um golpe palaciano infligido pelas instâncias supremas da República.
O Brasil da ditadura militar sempre foi conhecido como um dos países mais desiguais do mundo, com 1% da população a possuir quase toda a riqueza do imenso país, enquanto a esmagadora maioria dos brasileiros sobrevivia penosamente e a minoritária «classe média-alta» ia usufruindo as migalhas dos privilégios. A ascensão do Partido dos Trabalhadores (PT) e do sindicalista Lula da Silva à Presidência da República, em 2003, proporcionou uma viragem substantiva de âmbito sócio-económico, proporcionando a redução da pobreza e o relançamento económico do Brasil, que enfileiraria no grupo dos países emergentes em desenvolvimento, apesar de cedências substantivas aos grandes interesses instalados que haviam, aliás, de abrir caminho à contra-ofensiva da grande-burguesia brasileira, culminando em dois processos vergonhosos à luz da lei internacional, um destituindo a presidente Dilma e outro cercando judicialmente o ex-presidente Lula.
O congresso e o senado brasileiros decidiram mobilizar forças para as duas operações, atacando primeiro a presidente Dilma sob a acusação de «pedalada fiscal» – um procedimento, vulgar nos governos, de adiar acertos de contas e que, no caso, o próprio congresso aprovaria, após destituir Dilma sob esse pretexto. Colocando Michel Temer na presidência num autêntico golpe palaciano, o congresso e o senado – sempre apoiados na Justiça brasileira, conhecida pelo recurso indiscriminado à «delação premiada» – desencadearam uma perseguição judicial ao ex-presidente Lula sob a acusação de um construtor, que viu a pena reduzida por «delatar» o ex-presidente, e sem mais qualquer prova.
O pior de tudo é, tanto o congresso como o senado brasileiros, estarem pejados de corruptos indiciados e/ou acusados pela Justiça, legislando todos para o golpe palaciasno atrás referido e, sobretudo, para se protegerem, tal como ao novel presidente Temer, de investidas dos tribunais que os ponham na cadeia. E, entretanto, Temer vai violando os limites do seu mandato legislando freneticamente para a regressão social do país.
No «país do futebol» até a bola resolveu dizer não à corrupção. É um indício de que a luta a travar pelas massas está no bom caminho.