A dívida
Sejamos claros (como dizem alguns parlamentares): a «ditadura do défice», imposta pela União Europeia a vários «países do Sul» é, no geral, uma gigantesca artimanha financeira para servir a Alemanha e correlativos do Norte da Europa, que comodamente se instalaram nos chamados «anos de brasa» a receber contínuos, garantidos e crescentes juros pelas gigantescas verbas emprestadas aos «países devedores», com dinheiro que os prestamistas teutónicos e correlativos pagam ao preço da uva mijona e recebem com a usura de três, quatro, cinco, seis ou sete por cento (quando não ainda mais), enquanto os países devedores se vão lentamente afundando numa dívida impagável, porque nunca pára de aumentar.
Continuemos a ser claros: este esquema de prestamismo internacional não é novo – está, aliás, profusamente documentado desde a História do Renascimento, onde as cidades-Estado do que é agora a Itália prosperaram à tripa-forra com o sistema, além de a ferro e fogo, quando calhava. A Alemanha, portanto, não inventou a roda: a direita conservadora que a governa limitou-se a ir ao baú e impor à União Europeia do euro a velha fórmula dos défices de Estado que, para começar, estipularam ser de 3% e que países como a França ou a Itália demoraram anos a respeitar (ou nem isso) sem, obviamente, serem jamais «intervencionados». Essa desgraça ficou para Portugal ou Espanha, Grécia ou Irlanda, os sarcasticamente famosos «PIGS» que, entretanto, têm contribuído à vara larga para (por exemplo) o famoso superavit alemão...
Uma coisa é certa (e já ninguém de bom senso se atreve a contestá-lo): estes défices são monstruosos pela sua intrínseca usura, que não pára de aumentá-los e, sobretudo, impede irremediavelmente o desenvolvimento económico de quem os sofre e determina a incapacidade de pagar a dívida, por mais que os donos da UE os «incentivem».
Para fugirem aos factos que desencadearam – a «crise do subprime» de 2007/2008, que pôs os povos a pagar a ruptura do sistema capitalista – os «donos disto tudo» inventaram as «metas do défice» para amarrarem os povos financeiramente mais depauperados a um «aperto de cinto» cruel e sem saída, enquanto os prestamistas globais se continuavam a locupletar. Na União Europeia foi o «Tratado de Lisboa» que operacionalizou isso (o tal do «porreiro pá» de Sócrates), sem se atreverem já a convocar referendos e decidindo tudo nas costas dos povos da UE.
É neste ponto que estamos e dele não sairemos sem romper com este garrote obsceno e não escrutinado dos «défices».
Bem pode o ministro das Finanças, Mário Centeno, vangloriar-se das «descidas do juro da dívida». No rigor dos factos, essa dívida nunca parará de aumentar nem o País de encolher economicamente, tal como acontecia no governo de Passos/Portas.