O acordo alemão

Ângelo Alves

Schulz e Merkel anunciaram no passado dia 12 de Janeiro o acordo preliminar entre o Partido Social Democrata (SPD), a União Democrata-Cristã (CDU) e a União Social-Cristã da Baviera (CSU) para a formação de um Governo de «grande coligação» na Alemanha. O Acordo terá ainda de ser ratificado pelos partidos, nomeadamente pelo SPD, onde, ao momento da redacção deste artigo, se acumulam sinais de divisões internas ditadas não pelo conteúdo do acordo, mas pelas possíveis consequências eleitorais futuras de uma reedição da «grande coligação».

Esta questão conduz-nos à questão da profunda crise de identidade que a maioria dos partidos sociais democratas na Europa atravessa, consequência do facto de as políticas defendidas por esta corrente ideológica serem, nas questões essenciais e estratégicas, similares às defendidas pela direita tradicional. Foi exactamente por isso que o SPD escolheu Schulz como candidato nas eleições alemãs, tentando com essa decisão distanciar-se nas palavras e na aparência da política de Merkel, tendo chegado mesmo a afirmar que o SPD nunca voltaria a coligar-se com a CDU/CSU de Merkel.

Mas a verdade vem sempre ao de cima. Os interesses do grande capital alemão e transnacional impuseram-se. A decisão de reeditar a «grande coligação» alemã é mais uma prova de que o discurso da «mudança» ou da «refundação» na União Europeia, protagonizado pelo Partido Socialista Europeu, não passa de um grande embuste. Basta olhar para o conteúdo do acordo e lá estão todas as linhas: aprofundar o euro e as suas políticas, relançar o eixo franco-alemão, e prosseguir na afirmação da UE como potência imperialista. A social-democracia está enfeudada ao velho consenso de Bruxelas. E mesmo partidos que deveriam estar a aprender com a realidade parecem não o querer fazer. O Secretário-geral do PS português saudou o Acordo e, pasme-se (ou se calhar não) Tsipras pressionou Schulz para se entender com Merkel.




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