Um pinheiro de Natal

João Frazão

Em Póvoa de Mosqueiros, Santa Comba Dão, já faz frio. As noites pedem lareiras acesas, mas foi a conversa a propósito dos incêndios, no salão da Associação local, que aqueceu o ambiente da passada sexta-feira.

Afirmada a avaliação do Partido sobre as origens e os responsáveis da dramática situação vivida este Verão, e a exigência de que o Governo responda, com clareza, às necessidades imediatas das populações e aos apoios à restituição das condições de vida e de trabalho, as opiniões e perguntas sucedem-se, vindas de quem viveu a tragédia e tem para contar momentos de horror, mas também de coragem, de sobrevivência e de capacidade de luta pela vida que continua.

No seu olhar seguramente septuagenário, rugas no rosto cansado mas vivo da experiência, na sua determinação de mulher beirã habituada às agruras dos dias, a primeira intervenção põe tudo a nu.

«Nós aqui perdemos a floresta toda. Desde aqui até ao Mondego não há uma árvore que tenha ficado viva. Isto foi só o seguimento do que nos fizeram ao longo destes anos todos. Nós não temos médicos, não temos escolas, não temos transportes. Estamos para aqui abandonados por toda a gente.»

Compreensível sentimento de abandono por sucessivos governos, de quem, apesar de todas as evidências, não consegue identificar na política de direita a origem dos seus problemas.

Da mesa, os camaradas de lá lembraram os que sempre lá estiveram, na luta contra o encerramento do SAP de Santa Comba Dão, contra a privatização da água, bem como na vitoriosa luta contra o encerramento do Tribunal.

A septuagenária não desarma. «Olhe que nós aqui já nem temos sequer um pinheiro para o Natal». A noite já vai longa e escura. Tão escura como estão hoje os pinheiros que outrora deram verde e vida àqueles lugares.

Voltamos com a certeza de que o que faz falta àquele povo é um pinheiro de Natal onde se possa pôr uma outra política, patriótica e de esquerda. Mas esse tem de ser cortado com a força de todos.




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