Chamuscado
Passos Coelho não pára. As «apresentações» autárquicas são um alfobre donde lhe saem, diariamente, mimos oratórios e no último fim-de-semana fê-lo a partir de Águeda e Barcelos (mas podia ser de outros sítios quaisquer, que a verve não se lhe entope).
Infelizmente, o interesse do que diz é inversamente proporcional à imensidão de vezes que sobe aos palanques para falar, sempre apartando os discursos com as mãos, às talhadas.
No fim-de-semana supracitado disse que «Portugal não está a aproveitar devidamente o quadro financeiro de apoio europeu que nós negociámos [«nós» eles, governo PSD/CDS]», não quantificando um único número que fundamentasse a acusação, seguindo-se o desemprego que «ao contrário do que a geringonça quer hoje fazer crer, não começou a baixar agora, tem vindo a baixar desde 2013», descuidando-se a dizer que o tal desemprego «atingira um pico no 1.º trimestre de 2013», sem quantificar o «pico» - que atingiu à volta dos 20% de desempregados – nem ponderar que recebera o País com 12% de desempregados da população activa e que, em ano e tal de governação, lançara no desemprego mais de meio milhão de trabalhadores portugueses.
Seguiu-se uma frase enigmática: «Mas muito daquilo que podia ser o nosso crescimento», disse ele, «ficou comprometido por se ter perdido demasiado tempo com equilíbrios políticos que não interessavam ao País, só interessavam aos partidos que suportam o Governo».
Os «equilíbrios políticos» referidos (e que, segundo Passos, «não interessavam ao País») são «apenas» o aumento do salário mínimo ou a reposição de milhões de reformas miseráveis que o Governo de Coelho reduzira ainda mais miseravelmente...
«Isto» é que causou tal desgosto a Passos que, codicioso, se entrincheirou atrás da bandeirinha na lapela de «primeiro-ministro no exílio» e passou a convocar o diabo-a-sete, dia sim, dia sim, para atrair desgraças sobre a actual solução política.
Finalmente, decretou que «não há dúvida, o Governo não está à altura das expectativas que gerou», já esquecido do diabo cuja vinda anunciou para Setembro passado e do chorrilho de catástrofes e desgraças consecutivas que foi pre-anunciando diariamente ao longo do primeiro ano de exercício do Governo de António Costa. Agora já diz que «não está à altura das expectativas que gerou», esquecido de que acusava o Governo, aos berros, de «estar a mentir» aos portugueses com «promessas impossíveis de cumprir»...
Enfim, este é o homem que não hesita em anunciar suicídios que não sucederam para cavalgar a onda da desgraça dos incêndios e acusar o Governo.
Uma coisa é certa: Passos Coelho é um «incendiário» que vai, politicamente, sair bastante chamuscado desta história.