Respirar de alívio?

Ângelo Alves

«A Eu­ropa e o Mundo res­piram de alívio». Foi este o tí­tulo de va­ri­ados jor­nais a pro­pó­sito das elei­ções pre­si­den­ciais fran­cesas.

Não é a pri­meira vez que se diz «tudo e um par de botas» sobre as elei­ções em França. Há cinco anos Hol­lande era dado como o homem que ia «al­terar o pa­ra­digma» e «mudar a França e a Eu­ropa». Agora a «Eu­ropa e o Mundo res­piram de alívio», «virou-se uma pá­gina» na po­lí­tica fran­cesa e o povo francês «es­co­lheu um fu­turo eu­ropeu» e «o ca­minho da Eu­ropa forte e Unida».

Mas quem é que pode res­pirar de alívio? É na­tu­ral­mente po­si­tivo que Le Pen não tenha sido eleita, mas as causas do cres­ci­mento da ex­trema-di­reita man­ti­veram-se in­to­cadas. Desde logo porque Ma­cron foi muito claro na cam­panha elei­toral e no dis­curso de vi­tória: se­guirá um pro­grama ul­tra­li­beral de­se­nhado pelo grande ca­pital e de­fen­derá com unhas e dentes a União Eu­ro­peia e os seus pi­lares ne­o­li­beral, mi­li­ta­rista e fe­de­ra­lista. E essa é uma das causas da ex­trema-di­reita.

Ma­cron não sig­ni­fica ne­nhum virar de pá­gina na po­lí­tica fran­cesa, bem pelo con­trário. A no­vi­dade em França é que a morte anun­ciada do PS francês deu à luz uma força po­lí­tica, apre­sen­tada como «nova» e sem ide­o­logia, mas na ver­dade di­rec­ta­mente con­tro­lada pelo grande ca­pital. Uma força que para lá de Ma­cron, ex-ban­queiro, tem na sua equipa de di­recção al­guns dos prin­ci­pais qua­dros de grupos como a Al­tice ou a Bouy­gues Té­lécom. Um par­tido para onde correm já fi­guras como Ma­nuel Valls e que tem na «short list» para pri­meiro-mi­nistro nomes como Ch­ris­tine La­garde ou Bayrou.

Ma­cron re­pre­senta o que de mais velho existe na po­lí­tica: a ma­ni­pu­lação. A sua «Eu­ropa forte e Unida» irá apro­fundar ainda mais as con­tra­di­ções. O seu dis­curso, também po­pu­lista, criará, quando con­fron­tado com a sua real po­lí­tica, ainda mai­ores frus­tra­ções no povo francês. Não, não se pode res­pirar de alívio, de forma ne­nhuma. O res­piro de alívio do grande ca­pital visa as­fi­xiar os ca­mi­nhos da al­ter­na­tiva. Mas a luta con­tinua!




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