Três pérolas
1. O passado fim-de-semana começou com um diário nacional a colocar Jerónimo de Sousa num daqueles exercícios mediáticos que têm muito de espectáculo e pouco de jornalismo: o «sobe e desce». O Secretário-geral do PCP surgia a descer porque «com o País todo a discutir a descentralização, os comunistas estragam a conversa ao voltar a exigir a regionalização».
Mas, pior do que um director-adjunto de um jornal nacional não entender que a proposta do PCP é um contributo inestimável e inseparável para a discussão em torno da descentralização (para lá de imperativo constitucional), são os argumentos a que recorre. Para este, trata-se de uma «cartilha estafada» de um partido «incapaz de acompanhar o dinamismo» de outros e das suas «propostas fracturantes». A afirmação tem, pelo menos, o mérito de confessar um entendimento da política como espectáculo, ancorada em «propostas fracturantes», e o profundo preconceito de quem sempre vê dinamismo em tudo o que servir para justificar a velha (essa sim) «cartilha estafada» do partido «que só sabe propor a enésima variante do mesmo argumento».
2. A mais de cinco meses das eleições autárquicas, a especulação fervilha com cada vez mais força por parte da imprensa. No dia seguinte à «cartilha estafada», eis que outro diário descobriu um «mistério»: Setúbal é a única capital de distrito cuja presidente da Câmara ainda não anunciou a candidatura. Lá para o meio da prosa a novidade desvanece-se, já que, afinal, não é caso único.
Estando feita a tese (confirmada ou não), só a circunstância de a Câmara Municipal de Setúbal ser uma das 34 maiorias CDU explica a rebuscada aritmética que levou às bancas uma verdadeira não-notícia – ainda para mais quando a apresentação de candidaturas da CDU, como em Almada e no Barreiro, tem sido monumentalmente ignorada pelo mesmo diário.
3. A apresentação de votos no Parlamento, particularmente sobre matérias internacionais, tem servido para alimentar o circo mediático do anticomunismo. Na última sexta-feira chegaram-nos mais dois exemplos.
Na Venezuela, enquanto a direita protagonizava ataques a lojas, serviços públicos, forças de segurança e hospitais, com o beneplácito dos EUA (que intimam as autoridades a permitirem «protestos» como estes), milhões saíram às ruas de várias cidades sob a consigna «independência e soberania nacional». Em Portugal, o CDS-PP apresenta um voto de condenação que nada mais faz que legitimar as acções da chamada oposição e, fiel a Washington, ataca as autoridades venezuelanas.
Num outro ponto do globo, surgem notícias da criação de campos de concentração na República da Chechénia – ainda que as denúncias em causa disso nada falem e, na verdade, pouco digam com certeza. Neste caso, foi o BE a levar os «factos alternativos» ao plenário da Assembleia da República. No dia seguinte, um jornal punha o PCP a descer, por se ter abstido, «invocando razões nada convincentes».
O objectivo mediático destas iniciativas foi rapidamente cumprido, com a imprensa a dar notícia do «isolamento» do PCP nessas votações.