Lógicas irracionais

Manuel Gouveia

O Par­tido pro­moveu esta se­mana uma im­por­tante Au­dição par­la­mentar sobre as ques­tões da Se­gu­rança e Fi­a­bi­li­dade da Fer­rovia. A im­por­tância dos con­tri­butos re­ce­bidos exi­girá um vasto con­junto de res­postas aos di­versos planos da in­ter­venção par­ti­dária. Aqui, hoje, quero apenas abordar um sim­ples re­flexão, sus­ci­tada pelo de­bate.

A fer­rovia im­plica in­ves­ti­mentos de mi­lhares de mi­lhões de euros, quer na in­fra­es­tru­tura quer no equi­pa­mento. O trans­porte fer­ro­viário é es­tra­té­gico quer para a mo­bi­li­dade das po­pu­la­ções quer para o trans­porte de mer­ca­do­rias, sendo assim uma questão es­tra­té­gica para a pró­pria eco­nomia na­ci­onal.

Seria sim­ples­mente na­tural que algo assim me­re­cesse do país a dis­po­ni­bi­li­zação dos meios hu­manos para ren­ta­bi­lizar e po­ten­ciar tal in­ves­ti­mento. Mas acon­tece o con­trário. Hoje, muitos desses in­ves­ti­mentos são des­per­di­çados, de­gra­dados ou mal ren­ta­bi­li­zados por causa de di­rec­tivas que apontam como pri­o­ri­dade a re­dução de tra­ba­lha­dores e a mer­can­ti­li­zação do sis­tema. Es­ta­ções in­teiras estão aban­do­nadas, cri­ando di­fi­cul­dades aos utentes e con­tri­buindo para a de­gra­dação da in­fra­es­tru­tura. São su­pri­midos com­boios porque não se do­taram os postos de tracção de re­servas para su­prir na­tu­rais fa­lhas. Adiam-se ma­nu­ten­ções para adiar ou evitar a con­tra­tação de ope­rá­rios. Pul­ve­riza-se o sis­tema para de­sor­ga­nizar a força de tra­balho e criar con­di­ções para a sua cres­cente pre­ca­ri­zação e ex­plo­ração. Des­troem-se os cen­tros na­ci­o­nais de saber. E agora até querem co­locar os com­boios a cir­cular só com um tra­ba­lhador. O sis­tema perde fi­a­bi­li­dade e corre atrás de uma ren­ta­bi­li­dade fi­nan­ceira alheia.

Toda esta ir­ra­ci­o­na­li­dade tem uma ló­gica: a de po­ten­ciar o lucro dos ca­pi­ta­listas, e em par­ti­cular das mul­ti­na­ci­o­nais. Mas há ló­gicas que mesmo que for­mal­mente cor­rectas, são ir­ra­ci­o­nais. A ló­gica in­terna do sis­tema ca­pi­ta­lista é um exemplo. Li­ber­temo-nos!




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