Em facto
Ainda não saiu do adro o escândalo da evasão de dez mil milhões de euros para «paraísos fiscais» sem fiscalização do Fisco, em pleno consulado de Passos/Portas e na mesma altura em que pessoas eram desapossadas da sua habitação por dívidas de 100 ou 500 euros, mas já se percebeu que a procissão vai ter grandes dimensões.
O ex-secretário de Estado Paulo Núncio apresentou sucessivamente três versões sobre o caso dos offshores, ficou obviamente desacreditado e agora todos os olhos se viram para os responsáveis das Finanças do governo PaF – Maria Luís Albuquerque e Víctor Gaspar – e para Passos Coelho, chefe do executivo na altura.
A direita empenhada em desviar as atenções do caso centra-se em salvaguardar os dois ministros das Finanças e o primeiro-ministro de então, procurando estancar na confissão de Paulo Núncio (que, obviamente, se dispôs a assumir a «responsabilidade política» para iludir o seu papel de «testa de ferro») os estragos deste enxurro.
Mas o caso agravou brechas na direita, como se percebe na entrevista de Rui Rio ao DN, pessoa do PSD que gosta de dizer coisas, o que concorre para precipitar o inevitável: a audição parlamentar dos responsáveis maiores do governo Passos/Portas, confrontando-os com os factos que era impossível desconhecerem e que tutelavam por inteiro.
O escândalo alarga-se incessantemente, o que tem desnorteado Passos Coelho, que ora atira as responsabilidades pelo caso dos dez mil milhões para a Autoridade Tributária, ora (e com a mesma desfaçatez) «exige» «apuramento de responsabilidades» sem, contudo (até agora), se disponibilizar pessoalmente para prestar declarações na Comissão de Inquérito. Continua na mesma fuga para a frente, naquela voz redonda que apenas rola numa direcção, a da obsessiva «queda do Governo» que, delirantemente, o «reconduza» ao poder.
Entrou no anedotário nacional a ideia peregrina, que parece a única a mover Passos Coelho, de que tudo o que correr mal no País corre bem para o seu PSD e vice-versa, alocução não formulada pelo ex-chanceler, mas que tem a chancela da realidade que o próprio impinge, ao anunciar diariamente catástrofes e/ou desastres no País, ao arrepio dos factos e das estatísticas, agora positivas como nunca foram na sua governação e que ele teima, numa pertinácia bovina, em negar ad aeternum.
Mas deixemos Passos Coelho perdido no seu labirinto e reparemos na naturalidade com que se invoca a «legalidade» dos offshores, embora já não se possam esquivar a reconhecer que são geralmente usados «para esconder fortunas ou fugir ao Fisco».
Ou abrir caminho a todos os contrabandos. Os offshores são, em facto, um mecanismo para dar cobertura a todos os desmesurados roubos proibidos pelas próprias regras do capitalismo.