PCP insiste na rejeição do modelo
das PPP nos hospitais

Sobrepor a saúde ao lucro

O PCP re­a­firmou no Par­la­mento a sua re­jeição ao mo­delo de par­ce­rias pú­blico-pri­vadas (PPP), de­fen­dendo que «só a gestão pú­blica das uni­dades de saúde ga­rante o prin­cípio da igual­dade e da uni­ver­sa­li­dade».

As PPP in­serem-se numa ló­gica que faz da saúde um ne­gócio para os grupos eco­nó­micos

Esta po­sição foi vei­cu­lada faz hoje oito dias, 19, pela de­pu­tada co­mu­nista Carla Cruz em de­bate cen­trado em ques­tões re­la­ci­o­nadas com a po­lí­tica de Saúde e que contou com a pre­sença do res­pec­tivo ti­tular da pasta, Adal­berto Campos Fer­nandes.

A opo­sição frontal da ban­cada co­mu­nista à exis­tência de PPP foi ainda jus­ti­fi­cada pelo de­pu­tado co­mu­nista João Ramos com o facto de tal mo­delo visar apenas o «ob­jec­tivo do lucro dos grandes grupos eco­nó­micos», em de­tri­mento dos utentes e dos cui­dados de saúde.

Nada disto é no­vi­dade e há muito que também se sabe que o PCP apre­senta pro­postas para a re­versão das PPP, como fez de­sig­na­da­mente para o hos­pital de Braga.

A ideia de que não há ne­nhum es­tudo que mostre que as PPP são me­lhores ou pi­ores foi também re­ba­tida pela ban­cada co­mu­nista, que as­si­nalou que os es­tudos já pu­bli­cados não se cen­tram ver­da­dei­ra­mente nem nos cui­dados de saúde que são pres­tados aos do­entes nem na pre­ser­vação dos di­reitos dos utentes e dos pro­fis­si­o­nais.

E a este pro­pó­sito Carla Cruz afirmou não estar es­que­cida dos casos de uni­dades hos­pi­ta­lares em re­gime de PPP em que do­entes com tra­ta­mentos caros são trans­fe­ridos para ou­tras uni­dades pú­blicas ge­ridas pelo SNS. Tal como disse ter bem pre­sente a «pre­ca­ri­e­dade e a so­bre­carga la­boral a que estão su­jeitos os tra­ba­lha­dores nos hos­pi­tais PPP», ou, noutro plano, a in­dis­po­ni­bi­li­dade de me­di­ca­mentos com que muitos do­entes cró­nicos são tantas vezes con­fron­tados.

Re­jeição li­minar

Esta foi uma das ques­tões que do­minou este de­bate te­má­tico, es­tru­tu­rado em moldes di­fe­rentes do que é ha­bi­tual, com o mi­nistro a res­ponder logo a se­guir a cada uma das in­ter­ven­ções dos de­pu­tados.

Re­co­nhe­cendo que a apre­ci­ação po­lí­tica do PCP sobre esta ma­téria «é muito an­tiga, não é de agora», e afir­mando res­peitá-la – «ao con­trário de po­si­ções zi­gue­za­gue­antes e emer­gentes que vão apa­re­cendo con­so­ante o cál­culo po­lí­tico», anotou, numa crí­tica im­plí­cita ao PSD e ao CDS-PP –, o mi­nistro da Saúde sus­tentou que 2016 «foi o ano em que as trans­fe­rên­cias para as PPP menos cres­ceram», o mesmo acon­te­cendo com as «trans­fe­rên­cias para o sector pri­vado».

Ad­mi­tindo que «ha­verá tempo para apro­fundar o que tem sido feito em termos de es­tudos», adi­antou, to­davia, que a questão para si «não está em saber se existe ou não um custo al­ter­na­tivo» – «se os mi­lhões dados ao hos­pital ge­rido em PPP dei­xarão de ser dados, porque esse di­nheiro está lá», por­me­no­rizou –, mas «se o mo­delo ac­tual de gestão clí­nica com ope­rador pri­vado res­ponde me­lhor ou pior pelos di­reitos de acesso e pela qua­li­dade as­sis­ten­cial». Não ex­cluiu assim ne­nhum ce­nário, de­cla­rando-se aberto em qual­quer caso à dis­cussão sobre esta ma­téria.

Uma coisa é certa e foi re­a­fir­mada de forma muito clara no de­bate: o PCP re­jeita li­mi­nar­mente o mo­delo das PPP, seja o ac­tual mo­delo da cons­trução e gestão clí­nica, seja qual­quer outro mo­delo.
 

Pro­blemas que per­sistem

Ao de­bate, pela mão do PCP, veio também a si­tu­ação e as di­fi­cul­dades do SNS. Carla Cruz foi ta­xa­tiva ao cons­tatar que «per­sistem pro­blemas e pro­blemas graves», que não podem ser es­ca­mo­te­ados, mas não poupou na crí­tica às ban­cadas do PSD e do CDS-PP por virem agora hi­po­cri­ta­mente le­vantar a voz, fin­gindo ig­norar que todos os pro­blemas têm a marca da po­lí­tica de cortes que apli­caram no go­verno an­te­rior. Su­bli­nhou, no­me­a­da­mente, que con­ti­nuam a faltar pro­fis­si­o­nais de saúde, bem como a ve­ri­ficar-se tempos de es­pera de­ma­si­ados longos em ser­viços de ur­gência.

E por isso a sua in­sis­tência em querer saber que me­didas es­tru­tu­rais vai o Go­verno adoptar para re­solver os pro­blemas do SNS e quais as pers­pec­tivas para a re­dução da trans­fe­rência de pres­tação de cui­dados do SNS para pri­vados. É que, re­a­firmou, o PCP re­jeita li­mi­nar­mente esta «ló­gica do fa­vo­re­ci­mento dos grandes grupos eco­nó­micos e da pri­va­ti­zação da saúde».

Alu­dindo aos pro­blemas iden­ti­fi­cados, no­me­a­da­mente aos tempos de es­pera ex­ces­sivos e à falta de pro­fis­si­o­nais, o mi­nistro da Saúde afi­ançou que estão a ser dadas res­postas, dando como exemplo a con­tra­tação de mais quatro mil pro­fis­si­o­nais, a re­po­sição do tra­balho ex­tra­or­di­nário no ser­viço de ur­gência ou a apro­vação da por­taria que re­gu­la­menta os tempos de es­pera. Com esta úl­tima me­dida, afirmou, ha­verá opor­tu­ni­dade de ter «cen­tros de res­pon­sa­bi­li­dade in­te­grada nos hos­pi­tais», o que «vai per­mitir ainda este ano uma for­tís­sima in­ter­na­li­zação na área dos meios com­ple­men­tares de di­ag­nós­tico e te­ra­pêu­tica».

Na ré­plica, Carla Cruz não deixou de re­gistar a in­tenção ma­ni­fes­tada pelo go­ver­nante de in­ter­na­lizar e apro­veitar a ca­pa­ci­dade ins­ta­lada no SNS, lem­brando que esse é um ob­jec­tivo pelo qual o PCP tem ba­ta­lhado, vi­sando va­lo­rizar e pre­servar todo o po­ten­cial do SNS e re­duzir dessa forma o re­curso ao pri­vado.

Va­lo­rizar os tra­ba­lha­dores

Ideia forte su­bli­nhada no de­bate pelo de­pu­tado João Ramos foi a de que para a re­so­lução dos pro­blemas do SNS é fun­da­mental o au­mento do nú­mero de pro­fis­si­o­nais e o en­vol­vi­mento destes.

Sendo certo que houve um re­forço de mais quatro mil pro­fis­si­o­nais de saúde, como o mi­nistro não se cansou de re­petir, a ver­dade é que isso não ilude a ne­ces­si­dade de pros­se­guir o re­forço do efec­tivo, de­pois de quatro anos de go­ver­nação do PSD e do CDS-PP que dei­xaram o SNS com apenas 123 mil tra­ba­lha­dores ao seu ser­viço.

Foi deste quadro de per­sis­tentes pro­blemas e di­fi­cul­dades que falou João Ramos, exem­pli­fi­cando com o Centro Hos­pi­talar do Al­garve ou o Centro Hos­pi­talar de Trás-os-Montes e Alto Douro, onde há di­fi­cul­dades em as­se­gurar cui­dados de saúde de qua­li­dade, ao passo que no Centro Hos­pi­talar do Oeste são as con­sequên­cias da pre­ca­ri­e­dade que se con­ti­nuam a fazer sentir.

Daí ter su­bli­nhado a ne­ces­si­dade de va­lo­rizar os pro­fis­si­o­nais de saúde, ponto de vista que o mi­nistro com­par­ti­lhou, no­me­a­da­mente através do in­cre­mento de me­didas que ga­rantam «me­lhores vín­culos e me­lhores con­di­ções para que os tra­ba­lha­dores se va­lo­rizem pro­fis­si­o­nal­mente e nas car­reiras», bem como um «com­bate acér­rimo à pre­ca­ri­e­dade».

De­ta­lhando os pro­blemas de al­gumas ca­te­go­rias pro­fis­si­o­nais, João Ramos re­feriu que nos en­fer­meiros é «pre­ciso ar­ranjar ma­neira de pro­mover a pos­si­bi­li­dade de pro­gressão na car­reira, de va­lo­rizar os sa­lá­rios ade­quando-os aos ní­veis de for­mação e uni­for­mi­zando os sa­lá­rios nos cui­dados de saúde pri­má­rios», e «aplicar as 35 horas a todos os en­fer­meiros».

Sa­li­entou, por outro lado, que os psi­có­logos estão im­pe­didos de pro­gredir na car­reira e que há muitos que estão na ca­te­goria de es­ta­giá­rios, para além de es­tarem im­pe­didos na mo­bi­li­dade entre ser­viços.

Frisou, ainda, fa­lando dos téc­nicos de di­ag­nós­tico e te­ra­pêu­tica, que é pre­ciso con­cre­tizar a cri­ação das suas car­reiras e, quanto aos as­sis­tentes ope­ra­ci­o­nais, re­feriu que o fim das car­reiras es­pe­cí­ficas na ad­mi­nis­tração pú­blica e o nú­mero re­du­zido destes pro­fis­si­o­nais está a co­locar pro­blemas sé­rios aos ser­viços, le­vando a que al­guns não fun­ci­onem mesmo e ou­tros se de­batam com di­fi­cul­dades.

Quanto aos mé­dicos, apesar das en­tradas ocor­ridas, im­porta fazer uma in­ter­na­li­zação destes pro­fis­si­o­nais, su­bli­nhou o de­pu­tado do PCP.




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