Descentralização ou desresponsabilização

Jorge Cordeiro

O de­bate sobre des­cen­tra­li­zação, a pro­pó­sito da trans­fe­rência de com­pe­tên­cias para as au­tar­quias lo­cais, pro­mete pre­en­cher aten­ções. A de­fesa da au­to­nomia do poder local e o re­forço da com­po­nente par­ti­ci­pada na vida do Es­tado exige uma po­lí­tica ba­seada na des­cen­tra­li­zação. A exis­tência de au­tar­quias e a sua con­sa­gração cons­ti­tu­ci­onal re­flecte uma dupla di­mensão de um Es­tado des­cen­tra­li­zado e de au­to­nomia do Poder Local.

A pro­xi­mi­dade em si mesma não é um valor ab­so­luto

Image 22012

Não se nega que a des­cen­tra­li­zação de novas atri­bui­ções com­pe­tên­cias e uma clara e trans­pa­rente de­li­mi­tação de res­pon­sa­bi­li­dades entre os vá­rios ní­veis da ad­mi­nis­tração cons­titui con­dição para elevar efi­cácia da res­posta e a ca­pa­ci­dade de re­so­lução de pro­blemas nos vá­rios do­mí­nios e con­tri­buirá para pôr fim, ou re­duzir, a per­ma­nente in­de­fi­nição de res­pon­sa­bi­li­dades ali­men­tadas pelos go­vernos do PS, PSD e CDS, in­se­rida numa prá­tica de des­va­lo­ri­zação dos ser­viços pú­blicos.

A questão que se co­loca, en­tre­tanto, é que a des­cen­tra­li­zação não pode ser con­si­de­rada em abs­tracto. A fron­teira que se­para a pos­si­bi­li­dade de se tra­duzir em van­ta­gens para as po­pu­la­ções e maior ca­pa­ci­dade de res­posta aos seus di­reitos, ou pelo con­trário, em pre­juízo destes ob­jec­tivos é ténue e de­li­mi­tada por um con­junto de pres­su­postos que não é pos­sível ig­norar.

A exi­gência de uma efec­tiva des­cen­tra­li­zação, que o PCP de­fende, tem sido acom­pa­nhada pela dis­po­ni­bi­li­dade das au­tar­quias para exa­minar as pos­si­bi­li­dades e con­di­ções para a sua con­cre­ti­zação. Exame que só é pos­sível a partir de uma pos­tura séria e ri­go­rosa dos ní­veis de poder en­vol­vidos e da sua par­ti­ci­pação em pé de igual­dade, na base de re­gras cla­ra­mente de­fi­nidas, e que tem de con­sistir num apu­rado tra­balho de ava­li­ação das ma­té­rias em questão. De­finir com rigor as atri­bui­ções e com­pe­tên­cias a trans­ferir e a sua na­tu­reza, cal­cular os meios ne­ces­sá­rios à sua con­cre­ti­zação, prever a sua evo­lução a médio prazo e as suas im­pli­ca­ções ad­mi­nis­tra­tivas e ju­rí­dicas cons­ti­tuem os pri­meiros e prin­ci­pais ob­jectos dessa ava­li­ação.

Na ver­dade, atri­bui­ções, po­deres e com­pe­tên­cias, meios fi­nan­ceiros, hu­manos e ma­te­riais cons­ti­tuem uma uni­dade in­te­grada e in­dis­so­ciável. Uni­dade esta per­ma­nen­te­mente ig­no­rada num pro­cesso que, sempre em nome da des­cen­tra­li­zação, se tem tra­du­zido em trans­fe­rência de en­cargos e ali­ja­mento de res­pon­sa­bi­li­dades do poder cen­tral, ex­pe­di­ente para re­duzir ou negar di­reitos es­sen­ciais mesmo em ma­té­rias de fun­ções so­ciais do Es­tado.

Para a de­fi­nição das atri­bui­ções e com­pe­tên­cias a trans­ferir é con­dição prin­cipal a ve­ri­fi­cação de que as ma­té­rias res­pec­tivas não pre­ju­di­quem o ca­rácter uni­versal de po­lí­ticas cor­res­pon­dentes a fun­ções so­ciais do Es­tado, o que im­plica uma ob­ser­vação se­lec­tiva e res­tri­tiva da de­li­mi­tação de com­pe­tên­cias em áreas como as da saúde, edu­cação ou pro­tecção so­cial.

E o nível re­gi­onal?

Outro ele­mento es­sen­cial a essa de­fi­nição é o facto ini­lu­dível de que, ha­vendo atri­bui­ções e com­pe­tên­cias que não estão bem no nível cen­tral, não es­tarão bem também nem são sus­cep­tí­veis de ser as­su­midas ao nível mu­ni­cipal. E a ine­xis­tência do nível re­gi­onal, cons­ti­tu­ci­o­nal­mente con­sa­grado, não pode ser ilu­dido pelo ex­pe­di­ente de re­curso às co­mu­ni­dades in­ter­mu­ni­ci­pais, em si mesmas po­lí­tica e ju­ri­di­ca­mente ina­cei­tá­veis.

Já no que toca ao de­sen­vol­vi­mento de cada uma das ma­té­rias a trans­ferir, é es­sen­cial con­si­derar a ca­pa­ci­dade fi­nan­ceira, mas também de meios hu­manos e or­ga­ni­za­ci­o­nais, dos mu­ni­cí­pios: a questão prin­cipal co­lo­cada, após anos de as­fixia de re­cursos fi­nan­ceiros das au­tar­quias, não é acres­centar com­pe­tên­cias mas sim criar con­di­ções para o exer­cício pleno das atri­bui­ções com­pe­tên­cias que lhes estão le­gal­mente co­me­tidas.

A pro­xi­mi­dade do nível de ad­mi­nis­tração é sem dú­vida um valor im­por­tante. Feita a afir­mação é, no en­tanto, ne­ces­sário acres­centar que a pro­xi­mi­dade em si mesma não é um valor ab­so­luto. A im­por­tância do factor pro­xi­mi­dade não pode ser se­pa­rado das con­di­ções de exer­cício das com­pe­tên­cias.

Se os meios a trans­ferir não cor­res­pon­derem, como não têm cor­res­pon­dido nem há ga­ran­tias de que ve­nham a cor­res­ponder, ao nível de exi­gência da pres­tação de ser­viços a as­sumir pelo poder local, se os re­cursos para a exe­cução das res­pon­sa­bi­li­dades não derem ga­ran­tias de um nível de qua­li­dade su­pe­rior àquele que hoje é al­can­çado, então o pro­cesso de trans­fe­rência de com­pe­tên­cias não pas­sará de um novo logro com pre­juízos para a au­to­nomia do poder local e, so­bre­tudo, para a po­pu­lação tra­du­zindo-se, na prá­tica, na con­ti­nui­dade da des­res­pon­sa­bi­li­zação da ad­mi­nis­tração cen­tral da­quilo que é a sua missão e dever.

 



Mais artigos de: Opinião

Derrotar Trump

A aproximação da tomada de posse do novo presidente dos EUA não deve fazer perder de vista as tendências de fundo da situação internacional e nos principais centros do imperialismo, com destaque para aquela que ainda é indiscutivelmente a sua maior potência – os...

Será pedir demais?...

O jornal «Negócios» informava na passada terça-feira que «a eventual nacionalização do Novo Banco, o “banco de transição” nascido dos despojos do BES, enfrenta dois obstáculos em Bruxelas, para as quais Mário Centeno terá de...

Verdades e mentiras<br>na morte de Soares

A posição do PCP sobre o falecimento de Mário Soares não podia ser mais rigorosa e coerente. As condolências enviadas pelo Partido ao PS e à família foram justificadas e claras e não podem ser usadas como elemento para a reescrita da história. A campanha...

O que a história a prova

Não há jornal que não tenha a secção dos altos e baixos, do sol e sombra, dos mais e dos menos, do sobe e desce, num exercício de apreciação da acções, atitudes ou iniciativas desta ou daquela personalidade ou organização. Esta...

Os civis

«Quinze cidadãos, escolhidos de forma a espelharem tanto quanto possível a diversidade da sociedade portuguesa», estiveram no último fim-de-semana na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa a «debater propostas para melhorar a...