Tarefas para o novo ano

Albano Nunes

Gos­ta­riam de es­pa­lhar a des­crença na luta or­ga­ni­zada

O tra­ta­mento me­diá­tico da his­tó­rica li­ber­tação de Alepo ou de trá­gicos acon­te­ci­mentos como o do pas­sado dia 19 em Berlim nada tem a ver com a ver­dade dos factos e muito menos com o es­cla­re­ci­mento das suas causas. Pelo con­trário, o pro­pó­sito é con­fundir e de­so­ri­entar. Pro­cura-se que per­camos o fio à meada no caó­tico quadro in­ter­na­ci­onal que traçam para que in­te­ri­o­ri­zemos a ideia im­becil de que o tempo da luta por va­lores e ideais acabou e de que «não há al­ter­na­tiva», mesmo se todos os dias isso é des­men­tido pelos factos. Gos­ta­riam que es­que­cês­semos de onde vimos e para onde vamos e de varrer da me­mória dos povos com­bates com que ras­garam os ca­mi­nhos da li­ber­tação so­cial e hu­mana. Gos­ta­riam de es­pa­lhar a des­crença na luta or­ga­ni­zada e na pos­si­bi­li­dade de criar uma nova so­ci­e­dade sem ex­plo­ra­dores nem ex­plo­rados. Gos­ta­riam que de­sis­tís­semos para deixar campo livre à in­sa­ciável gula do grande ca­pital im­pe­ri­a­lista.

 

A ex­pe­ri­ência his­tó­rica mostra que um tal pro­pó­sito está con­de­nado ao fra­casso. Mas mostra também que tem de ser fir­me­mente com­ba­tido para que atrase o menos pos­sível as mu­danças ne­ces­sá­rias. Mu­danças que estão ins­critas na pró­pria na­tu­reza do ca­pi­ta­lismo e são pro­duto das suas in­sa­ná­veis con­tra­di­ções. Mu­danças que o apro­fun­da­mento da crise es­tru­tural do ca­pi­ta­lismo torna cada dia mais ne­ces­sá­rias e ur­gentes, mas que só po­derão ter lugar pela in­ter­venção re­vo­lu­ci­o­nária das massas po­pu­lares. Mu­danças que exigem par­tidos co­mu­nistas e re­vo­lu­ci­o­ná­rios pro­fun­da­mente iden­ti­fi­cados com os tra­ba­lha­dores e os povos dos seus países e co­o­pe­rando es­trei­ta­mente entre si no plano in­ter­na­ci­onal. Mu­danças que im­plicam uma acção per­sis­tente em que a luta por ob­jec­tivos par­ciais deve ter sempre no ho­ri­zonte a su­pe­ração re­vo­lu­ci­o­nária do ca­pi­ta­lismo e a cons­trução de uma so­ci­e­dade so­ci­a­lista e co­mu­nista.

 

É com esta con­vicção, que o XX Con­gresso for­ta­leceu, que o PCP en­cara o ano que agora se inicia. Uma con­vicção as­sente na aná­lise de uma si­tu­ação in­ter­na­ci­onal mar­cada por uma grande ins­ta­bi­li­dade e in­cer­teza, em que se co­locam grandes in­ter­ro­ga­ções quanto ao modo como as di­fe­rentes frac­ções da classe do­mi­nante vão lidar com a crise pro­funda que o sis­tema ca­pi­ta­lista atra­vessa e, mais es­pe­ci­fi­ca­mente, como vão os EUA pro­curar deter o de­clínio re­la­tivo da sua in­fluência no plano mun­dial e «ser outra vez grandes». Uma si­tu­ação mar­cada por uma pe­ri­go­sís­sima de­riva se­cu­ri­tária com ataque aberto a li­ber­dades e di­reitos fun­da­men­tais em que, a pre­texto da «se­gu­rança contra o ter­ro­rismo» e do «pe­rigo po­pu­lista» – como em França e agora na Ale­manha – o que a classe do­mi­nante faz é exer­citar o mús­culo e pre­parar uma res­posta vi­o­lenta às ine­vi­tá­veis ex­plo­sões de des­con­ten­ta­mento e re­volta po­pular contra as suas po­lí­ticas e contra o pró­prio sis­tema. Uma si­tu­ação em que o im­pe­ri­a­lismo está a pro­vocar uma de­ses­ta­bi­li­zação ge­ne­ra­li­zada das re­la­ções in­ter­na­ci­o­nais e a ame­açar o mundo com con­flitos de ca­tas­tró­ficas pro­por­ções. Mas onde pros­segue a re­sis­tência e a luta dos tra­ba­lha­dores e dos povos e ger­minam novos avanços pro­gres­sistas e re­vo­lu­ci­o­ná­rios.

 

As in­ter­ro­ga­ções e pre­o­cu­pa­ções com que en­tramos no novo ano são muito grandes mas não nos ame­drontam nem pa­ra­lisam como pre­tendem os nossos ad­ver­sá­rios. Pelo con­trário, de­sa­fiam-nos e es­ti­mulam-nos para levar à prá­tica as de­ci­sões do XX Con­gresso do Par­tido, essa arma fun­da­mental para a mo­bi­li­zação con­fi­ante e mi­li­tante de todo o co­lec­tivo par­ti­dário. E para dar ainda mais força às co­me­mo­ra­ções do cen­te­nário da Re­vo­lução So­ci­a­lista de Ou­tubro, afir­mando e con­fir­mando a va­li­dade e ac­tu­a­li­dade do ideal e do pro­jecto co­mu­nista.

 



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