Quando perguntarem...
Na próxima semana, aqueles que se queixam que não se fazem as greves que eles querem, queixar-se-ão das greves que se fazem. Dois pré-avisos de greve prometem paralisar os Aeroportos Nacionais. Nos dias 27, 28 e 29 de Dezembro entram em greve os Assistentes de Portos e Aeroportos, os trabalhadores que asseguram o controlo de passageiros e bagagem. Nos dias 28, 29 e 30 é a vez da Assistência em Escala (vulgo Handling).
São duas lutas que vêm de longe, em sectores altamente precarizados e desregulados, onde os trabalhadores portugueses são cada vez mais espremidos para alimentar o lucro dos capitalistas de empresas tendencialmente multinacionais como a Securitas, a Prossegur, a Ryanair ou a Vinci, perante a cumplicidade dos sucessivos governos, ora mais activos ora mais passivos, mas até hoje sempre aliados do processo de liberalização em curso.
Num clima de medo, perseguições e chantagens múltiplas, onde o cinismo e a hipocrisia de patrões e governos é revoltante e revolta, os trabalhadores têm construído um caminho de resistência – de organização, unidade e luta – que sendo um caminho longo e árduo, lhes permitirá, mais cedo do que tarde, travar a destruição de direitos, impor o acesso à contratação colectiva para todos e travar a precariedade.
Aos que perguntarem pelas razões da greve, sugiro que lhes transmitam este caso, relatado ao PCP na iniciativa realizada na passada sexta-feira no aeroporto de Lisboa: um trabalhador, para o caso, da Prossegur, atravessou à chuva um percurso de quase um quilómetro para chegar ao Aeroporto (apesar de haver milhares de lugares em parque de estacionamento pago, e apesar de à noite até estarem vazios), para se apresentar no seu posto às 4h30, tendo-lhe sido passada uma repreensão, com ameaça de despedimento, por estar indevidamente fardado, pois tinha as pernas das calças... molhadas (é que também não há lugar para estes trabalhadores se fardarem no Aeroporto, nem cacifo para deixarem os seus pertences devidamente protegidos, nem local para tomada de refeições). Um exemplo, onde a única coisa que tem sido estranha e pouco comum à vida de milhares de trabalhadores do Aeroporto tem sido a chuva.