Pequenos-almoços
A Fertagus é uma empresa privada, que pertence ao Grupo Barraqueiro, que quer ser vendido à Arriva, que é uma multinacional inglesa que já foi comprada pela empresa pública alemã DB.
Ora queixa-se esta Fertagus de que 46 pessoas se atreveram a desmaiar nos seus comboios no primeiro semestre de 2016 por, imaginem a falta de consideração, não terem tomado o pequeno-almoço. E, para grandes males, grandes soluções. Vai de lançar uma campanha para que os passageiros não cometam essa irresponsabilidade de não se alimentarem em condições e de assim prejudicarem os restantes passageiros (pois os seus irresponsáveis desmaios obrigam a parar comboios para os socorrer).
Até os capitalistas que se alimentam da Fertagus sabem que quem não toma o pequeno-almoço não é por opção, mas pela absoluta falta de recursos económicos e esporadicamente por um atraso que tem que ser compensado para evitar a perda do posto de trabalho). É pois natural a pergunta: então para que serve esta campanha? Para responsabilizar as vítimas? Para «explicar» os atrasos nas circulações? Para que os restantes passageiros não chamem o socorro da próxima vez que alguém desmaiar?
E a comunicação social dominada reproduz esta campanha sem um queixume, um despertar, um olhar para as causas. Mas olhemos nós. Por que tantos portugueses que trabalham ou estudam – que são o grosso dos utentes da Fertagus – se deslocam sem tomar o pequeno-almoço? Porque vivem com baixos salários e tem despesas desproporcionadas, nomeadamente com os transportes! Claro que ninguém esperaria que a Fertagus lançasse uma campanha pelo aumento dos salários (afinal, os capitalistas que pagam o pequeno-almoço com os lucros da Fertagus também ganham com os baixos salários dos trabalhadores da Fertagus) ou passasse a praticar preços mais acessíveis (um utente da Fertagus paga, em média, o dobro de um utente da CP, assim reforçando o pequeno-almoço dos capitalistas da Fertagus).
Nunca esperemos soluções de quem nos rouba. Neste caso, o pequeno-almoço!