A Corte de aldeia
Maria Luís Albuquerque também possui uma geringonça e utiliza-a para se empalhar de ministra sem ministério nem governo. Desta vez disse, sobre o Orçamento do Estado para 2017: «Assenta muitíssimo num aumento de impostos generalizado sobre uma série de matérias, que passa uma mensagem completamente errada para quem queira poupar ou investir neste País, porque reforça uma enorme instabilidade fiscal para dar a alguns relativamente pouco, tirando a muitos e reforçando a injustiça social e as desigualdades».
Descontando a linguagem tremendista e alguma gaguez sintáctica, o que daqui se retira é que houve um «aumento de impostos generalizado sobre uma série de matérias» – o que diz imenso sobre nada –, que o Orçamento «passa uma mensagem completamente errada para quem queira poupar ou investir neste País» – não explicando onde raio está a mensagem nem onde ela erra –, que «reforça uma enorme instabilidade fiscal», dando «a alguns relativamento pouco, tirando a muitos» – ficando sem se saber quem são «os alguns» a quem se dá «relativamente pouco» nem «os muitos» a quem «se tira» – e, finalmente, o Orçamento «reforça a injustiça social e as desigualdades» – acusação tão fundamentada como a que acusa a Terra de não ser redonda.
Literalmente, Maria Luís exibiu uma mão cheia de nada, aliás, ao seu jeito do costume.
A par, surge Assunção Cristas a arrumar a questão do Orçamento com o que julgará ser uma grande «tirada».
«Parece que abriu a época da caça ao contribuinte», disse ela muito cinegética e dando o assunto por arrumado, não sem antes experimentar nova tirada: «Continuamos numa austeridade à la esquerda». E olé!
Esta gente, que ainda há um ano, do alto das suas competências governativas, exalava um desprezo maciço pelo bem estar do povo português, desprezando com indiferença a mancha de pobreza e miséria que faziam alastrar pelo País há quatro intermináveis anos, surge agora com um palavreado orçamental «à la esquerda» – como se fosse possível travestirem-se disso – e esquecendo (ou fingindo esquecer, tanto faz) a angústia diária que impuseram ao quotidiano do País durante o seu interminável mandato governativo, acordando toda a gente sempre à espera de saber qual o novo corte de salário ou pensão, de direito ou subvenção que aí vinha, sem aviso ou explicação e perante os quais se vivia uma desoladora impotência.
Passos Coelho e os restos da Pafaria perderam o poder e, sem o perceberem e aceitarem, tornaram-se uma tropa fandanga que desfila pelo País despida e desamparada, à espera que um miúdo na rua grite que o rei vai nu e toda a gente desate, finalmente, a rir desta Corte de aldeia que não se enxerga a si própria, quanto mais ao País para quem julga falar.