Debute em carris
O processo de integração capitalista da União Europeia foi e é sempre acompanhado de grandes campanhas de propaganda tentando criar a falsa ideia da «cidadania europeia» e do «sentimento europeu».
Os instrumentos são muitos, dirigidos a vários estratos sociais e etários, nomeadamente à juventude com toda uma panóplia de mecanismos que visam criar uma apreensão da inevitabilidade do processo de integração capitalista, confundindo deliberadamente os conceitos de Europa e União Europeia.
O actual nível de crise na e da União Europeia coloca reais dificuldades ao prosseguimento dessa linha estratégica de formatação ideológica. Os discursos da «cidadania europeia» embatem na parede da dura realidade de uma muito funda crise social e de desigualdades e assimetrias crescentes. Mas isso não significa que essas campanhas tenham sido abandonadas, bem pelo contrário.
Vem a reflexão a propósito da recente proposta que será discutida no Parlamento Europeu de oferecer a todos os jovens que completem 18 anos e residam nos estados membro da União Europeia um passe Interrail, no valor de 479 Euros, que lhes permitirá percorrer a Europa em comboio ao longo de três semanas distribuídas por um período de dois anos. A proposta, lá está, visa «criar um sentimento europeu» nas jovens gerações. O debute europeu em carris envolveria, teoricamente, 5,4 milhões de jovens com 18 anos e poderá custar, se aprovado, 1,5 mil milhões de euros por ano.
Como sempre a ideia parece simpática. Mas a realidade dirá quantos irão passear de comboio pela Europa, pagando do seu bolso todas as outras despesas. Desde logo porque é difícil imaginar esse debute quando na União Europeia a taxa de desemprego juvenil ronda os 20%, quando cerca de oito milhões de jovens não têm qualquer actividade e quando mais de 21% dos jovens com idades entre os 16 e os 24 anos são pobres. Mas dirá também quais os jovens que poderão usufruir da «prenda» da UE dadas as enormes assimetrias bem expressas, a título de exemplo, no facto de a taxa de desemprego juvenil ser de 47,7% na Grécia e de 6,9% na Alemanha. A menos que, por exemplo, o meio milhão de portugueses emigrados nos últimos anos, a maioria jovens, utilize o Interrail para vir visitar a família.