Debute em carris

Ângelo Alves

O processo de integração capitalista da União Europeia foi e é sempre acompanhado de grandes campanhas de propaganda tentando criar a falsa ideia da «cidadania europeia» e do «sentimento europeu».

Os instrumentos são muitos, dirigidos a vários estratos sociais e etários, nomeadamente à juventude com toda uma panóplia de mecanismos que visam criar uma apreensão da inevitabilidade do processo de integração capitalista, confundindo deliberadamente os conceitos de Europa e União Europeia.

O actual nível de crise na e da União Europeia coloca reais dificuldades ao prosseguimento dessa linha estratégica de formatação ideológica. Os discursos da «cidadania europeia» embatem na parede da dura realidade de uma muito funda crise social e de desigualdades e assimetrias crescentes. Mas isso não significa que essas campanhas tenham sido abandonadas, bem pelo contrário.

Vem a reflexão a propósito da recente proposta que será discutida no Parlamento Europeu de oferecer a todos os jovens que completem 18 anos e residam nos estados membro da União Europeia um passe Interrail, no valor de 479 Euros, que lhes permitirá percorrer a Europa em comboio ao longo de três semanas distribuídas por um período de dois anos. A proposta, lá está, visa «criar um sentimento europeu» nas jovens gerações. O debute europeu em carris envolveria, teoricamente, 5,4 milhões de jovens com 18 anos e poderá custar, se aprovado, 1,5 mil milhões de euros por ano.

Como sempre a ideia parece simpática. Mas a realidade dirá quantos irão passear de comboio pela Europa, pagando do seu bolso todas as outras despesas. Desde logo porque é difícil imaginar esse debute quando na União Europeia a taxa de desemprego juvenil ronda os 20%, quando cerca de oito milhões de jovens não têm qualquer actividade e quando mais de 21% dos jovens com idades entre os 16 e os 24 anos são pobres. Mas dirá também quais os jovens que poderão usufruir da «prenda» da UE dadas as enormes assimetrias bem expressas, a título de exemplo, no facto de a taxa de desemprego juvenil ser de 47,7% na Grécia e de 6,9% na Alemanha. A menos que, por exemplo, o meio milhão de portugueses emigrados nos últimos anos, a maioria jovens, utilize o Interrail para vir visitar a família.




Mais artigos de: Opinião

Não podem ser os mesmos a pagar

A divulgação recente na comunicação social de que os bancos viram o prazo de pagamento do empréstimo feito pelo Estado ao Fundo de Resolução (3900 milhões de euros) alargado até 2046, decisão imposta pela Direcção Geral da Concorrência da Comissão Europeia (DGCompt) e o Banco Central Europeu (BCE), como contrapartida da autorização de recapitalização da Caixa Geral de Depósitos pelo Estado português, vem confirmar uma tese por nós defendida desde Agosto de 2014, altura em que se verificou a Resolução do BES: os bancos não pagariam a dívida do Fundo de Resolução ao Estado.

O Expresso no seu melhor

À medida que iam sendo divulgadas as peças sobre as sedes dos outros partidos, fui antecipando aquilo que seria o texto que o Expresso acabaria por publicar no último fim-de-semana sobre a sede do PCP. Ao contrário do que se desejaria, o Expresso acabou por produzir um texto na linha daquilo a...

Sem decoro

Quinze dias depois de ter sido divulgado o estudo intitulado «Portugal Desigual», da Fundação Francisco Manuel dos Santos, e de o País ter ficado a saber que a quebra média de rendimentos verificada em Portugal entre 2009 e 2014 se situou em 116 euros mensais (12%), mas que os dez...

Síria

Os recentes desenvolvimentos da situação na Síria vêm demonstrar que o imperialismo norte-americano continua apostado na brutal guerra de agressão contra a soberania e integridade territorial da República Árabe Síria e a tentar impor o afastamento do Governo...

Albarde-se

Há dias, um jornalista da CMTV (o canal televisivo do Correio da Manhã) dizia para o seu entrevistado «portanto, o senhor está a dizer que o juiz (...) devia demitir-se», ao que este respondeu, algo alarmado, «não senhor! O que eu disse foi que o juiz (…) devia...