Albarde-se

Henrique Custódio

Há dias, um jor­na­lista da CMTV (o canal te­le­vi­sivo do Cor­reio da Manhã) dizia para o seu en­tre­vis­tado «por­tanto, o se­nhor está a dizer que o juiz (...) devia de­mitir-se», ao que este res­pondeu, algo alar­mado, «não se­nhor! O que eu disse foi que o juiz (…) devia pon­derar a si­tu­ação em que su­pos­ta­mente está en­vol­vido!».

Estas «con­clu­sões» des­pu­do­ra­da­mente a mar­telo podem ser a marca de água do Cor­reio da Manhã e, de­certo, não será por acaso que o jor­na­lismo que por ali se pra­tica om­breie com pu­bli­ca­ções do tipo Crime, fe­liz­mente já fa­le­cido.

To­davia, o au­to­pro­cla­mado «jor­na­lismo sério» não tem de que se or­gu­lhar no con­fronto, seja na te­le­visão, na rádio ou na im­prensa es­crita, com re­levo para a pri­meira.

Na te­le­visão impôs-se «a nar­ra­tiva». Raras – talvez ra­rís­simas – são já as no­tí­cias que surgem como tal – a des­crição de factos, a no­tação de eventos, o re­lato de acon­te­ci­mentos ocor­ridos aqui e agora.

As ac­tuais no­tí­cias te­le­vi­sivas exibem um fio nar­ra­tivo que as ex­plica e en­ca­minha, que as en­quadra e tu­tela, que as di­rec­ciona e con­clui, in­tro­du­zindo-lhes um ca­rácter fic­ci­onal in­trín­seco e, ob­vi­a­mente, fle­xível e ma­no­brável.

Assim sendo, as no­tí­cias te­le­vi­sivas en­ca­mi­nham-se a passos largos para se trans­for­marem na ex­pressão «al­barde-se o burro à von­tade do dono».

E é aqui que bate o ponto. «A von­tade do dono» con­subs­tancia-se li­ne­ar­mente nos pro­pri­e­tá­rios dos meios de co­mu­ni­cação – no caso, ca­nais te­le­vi­sivos –, e para que essa von­tade se cumpra, lá está a ca­deia hi­e­rár­quica jor­na­lís­tica com as pre­bendas da função e a efi­cácia ne­ces­sária à con­cre­ti­zação dos di­tames do pro­pri­e­tário.

Daí esta de­riva fic­ci­onal (cha­memos-lhe assim) das no­tí­cias te­le­vi­sivas, pro­va­vel­mente gra­ti­fi­cante a al­guns pro­fis­si­o­nais apli­cados em pro­duzir tra­ba­lhos cri­a­tivos mas, sem margem para equí­vocos, ma­ni­pu­la­doras quer dos factos no­ti­ci­ados como da sua re­cepção pelo grande pú­blico, afinal de contas o grande alvo de toda esta tra­ba­lheira.

Quando se inicia uma no­tícia a dizer «o chumbo do Or­ça­mento do Es­tado por Bru­xelas não está posto de parte» de­sen­ca­deia-se um im­pacto di­fe­rente sobre a no­tícia ori­ginal que dizia, sim­ples­mente, «Bru­xelas es­tuda o Or­ça­mento do Es­tado por­tu­guês», de onde nada mais se devia ex­tra­polar, mas que a no­tícia «cri­a­tiva» da Re­dacção con­se­guiu as­so­ciar a «chumbo» que «não está posto de parte».

Do mesmo molde um «es­tudo sobre a CGD» trans­forma-se em «dú­vidas sobre a CGD», en­quanto «re­la­tório de Bru­xelas sobre pri­meiro se­mestre da eco­nomia por­tu­guesa em 2016» surge como «re­la­tório do pri­meiro se­mestre da eco­nomia por­tu­guesa põe Bru­xelas de so­bre­a­viso sobre o se­gundo se­mestre de 2016».

Mas esta abor­dagem «cri­a­tiva» tem li­mites. Um deles é o da cre­di­bi­li­dade que, na te­le­visão, já não sig­ni­fica «ver­dade» só porque apa­rece por lá...

 



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