Sem decoro

Anabela Fino

Quinze dias depois de ter sido divulgado o estudo intitulado «Portugal Desigual», da Fundação Francisco Manuel dos Santos, e de o País ter ficado a saber que a quebra média de rendimentos verificada em Portugal entre 2009 e 2014 se situou em 116 euros mensais (12%), mas que os dez por cento dos portugueses mais pobres perderam 25 por cento do rendimento, enquanto os dez por cento mais ricos apenas perderam 13 por cento, quinze dias depois desta realidade vir a público, dizíamos, Passos Coelho teve a distinta lata de vir afirmar que o actual Governo e a solução política que o tornou possível defendem uma sociedade «mais pobre e mais injusta», onde todos «tenham pouquinho».

Fazendo tábua rasa dos dados estatísticos que mostram que durante o governo PSD/CDS o número de pobres aumentou em 116 mil (para 2,02 milhões), com um quarto das crianças e 10,7 por cento dos trabalhadores a viver abaixo do limiar da pobreza (6,3 por cento em privação material severa), Passos Coelho escolheu uma festa do seu partido para criticar a devolução de rendimentos roubados pelo seu governo.

Procurando passar uma borracha sobre o facto incontornável de as políticas promovidas pelo Executivo que liderou terem tido como consequência que hoje um em cada cinco portugueses viva com um rendimento mensal abaixo de 422 euros, o líder do PSD teve o topete de dizer estar preocupado com a mudança de rumo registada no País.

Fingindo ignorar que em 2014 os cinco por cento mais pobres recebiam 19 vezes menos do que os cinco por cento mais ricos (um agravamento brutal da brutal desigualdade que já se registava em 2009, quando a diferença era de 15 vezes), Passos Coelho teve o desplante de afirmar que o que quer «é acabar com a pobreza, não é acabar com a riqueza».

Passos Coelho não hesitou ainda em apelar à fuga de capitais, agitando o papão dos impostos – ele que impôs o «enorme aumento de impostos» – e alertando os mais ricos para terem «cuidado», pois «quem tem muito», com este Governo, «não pode estar cá».

Num discurso em que atribuiu à preocupação com o País a carantonha que ostenta desde que saiu do governo, Passos Coelho insultou quantos ficaram na miséria ao perder o emprego e todos os que trabalhando não consegue escapar à pobreza. Uma vergonha.

 



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