Os intocáveis

Vasco Cardoso

A mera possibilidade de no próximo Orçamento do Estado se poder adoptar medidas fiscais que, em vez de penalizarem os trabalhadores e as populações, tributem o património imobiliário (edifícios, propriedades, etc.) e mobiliário (acções, obrigações, etc.) detido pelo grande capital, levantou um coro de críticas, designadamente, contra os perigos de tais medidas poderem afugentar o investimento estrangeiro no nosso País. Trata-se de mais uma mistificação posta a circular, do estilo do «assalto à classe média», para justificar o injustificável.

Nada temos contra o investimento estrangeiro, ele é bem vindo, sobretudo se enquadrado na dinamização da nossa capacidade produtiva, mas não é esse o tipo de investimento que tem predominado nestes largos anos de política de direita. Um olhar sobre o stock (acumulado) de Investimento Directo Estrangeiro – IDE existente em Portugal no final do 1.º semestre deste ano mostra-nos que dos 109 mil milhões de euros investidos, apenas 6,4% se encontram alocados à Indústria Transformadora, 4,1% no sector da Electricidade Gás e Água e 2,6% no sector da Construção, enquanto o Sector dos Serviços absorve 77% desse IDE, destacando-se dentro deste o subsector das Actividades Financeiras e Seguros que representam 40% desse IDE e o subsector Imobiliário que representa 5,6%.

A esmagadora maioria do IDE em Portugal é feito em aplicações financeiras – dívida, participações de capital de empresas, outros produtos financeiros – ou seja, meras aplicações que visam arrecadar dividendos e drenar capitais para o exterior do País. Aliás, não andaremos longe da verdade se dissermos que uma parte substancial do «investimento estrangeiro» realizado nos últimos anos foi para comprar empresas entretanto privatizadas. Acresce a questão dos imóveis, importante do ponto de vista da entrada de capitais, mas uma mera operação de aquisição de edificado existente, logo não se trata de investimento directo.

No fundo, alguns gostariam de perpetuar uma «casta» de intocáveis que vive das privatizações, da especulação financeira, da livre circulação de capitais, dos paraísos e benefícios fiscais, dos fundos comunitários, da exploração directa e indirecta de milhões de trabalhadores, mas não é possível corrigir injustiças sem romper com os interesses e privilégios destes cavalheiros.

 



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