E não se pode taxá-lo?
Se a demagogia e a falta de decoro pagassem imposto, grande parte dos problemas financeiros do País há muito que estaria resolvida só à conta do PSD. Os últimos dias, então, teriam sido verdadeiros jackpots. Na impossibilidade de em tão curto registo dar nota de todas as peripécias, lembremos a inefável história dos «filtros» com que Passos Coelho revogou a irrevogável decisão de apresentar o livro de um autor que lhe merece todo o respeito e consideração – a pontos de aceitar a incumbência sem conhecer a obra –, desarrincanço tirado a ferros ao fim de muitos dias de polémica e não menos espadanar de «literatura» de sarjeta. Ao prezado amigo de Passos faltaram os «filtros», assumiu este contristado em praça pública como quem sacode as borras do capote, pelo que pediu escusa da missão, cuja viria a abortar na forma de cancelamento do tão badalado e prometedor lançamento da coisa.
Mal a poeira tinha assentado e já Passos Coelho se lançava noutra, desta feita para se gabar de o seu governo ter sido «bem sucedido» em colocar Portugal no «radar do investimento directo externo», com benefícios para a dívida pública e para a economia real. Sabendo-se o estado da dívida (130% do PIB) e da economia real em que o governo PSD/CDS deixou o País, comprovando os dados oficiais que a esmagadora maioria do referido investimento em Portugal é feito em aplicações financeiras para arrecadar dividendos e canalizar capitais para o estrangeiro, e sendo reconhecido, até prova em contrário, que o radar é um aparelho que serve para assinalar os objectos afastados, temos que Passos Coelho deve estar também com falta de filtros para distinguir a realidade da fantasia, tem o radar avariado ou continua a pensar que os portugueses são parvos.
Já no respeitante à recorrente polémica do financiamento dos partidos, o problema não é de radar mas de bússola, tal a aparente desorientação. Nesta matéria a reviravolta foi de 180º (e não 360 como afirmou o super comentador Marques Mendes, que seria voltar ao ponto de partida, provando que no melhor pano cai a nódoa), começando por ser contra os cortes, passando depois ao nim e acabando, até ver, por se manifestar a favor. Nada mau para quem, borrando a pintura, diz estar nas tintas para os resultados eleitorais.