Sanções e dominação
Merece a pena reflectir sobre o significado da política de sanções na natureza da UE. Uma entidade insuspeita, o Conselho Europeu de Relações Internacionais (European Council on Foreign Relations, ecfr.ue), explicita a questão de forma lapidar: «A arma preferencial da Europa são as sanções económicas». «Sanções económicas com alvos específicos são frequentemente a opção política – situada entre as palavras e a guerra – mais atractiva e mais viável» (http://www.ecfr.eu/article/commentary_what_would_brexit_mean_for_eu_sanctions_policy6046).
Servem para tudo e para todas as circunstâncias. Não é verdade que sejam em regra alternativa à guerra. Em muitos casos – Líbia, Síria, Rússia (a pretexto da Ucrânia) – complementam a ingerência e a agressão militar. São, nesse contexto, claramente ilustrativas de que a guerra é apenas um dos instrumentos no sistema da dominação imperialista.
O que o ECFR diz sobre sanções externas é inteiramente aplicável no plano interno. A UE é um sistema de poder do capital monopolista, poder que é exercido sob as formas de violência que forem necessárias. É esse o sentido das pressões e da chantagem, e não apenas sobre países economicamente mais débeis que não cumpram as dogmáticas regras orçamentais impostas. Veja-se o que se passa com a Grã-Bretanha pós-«Brexit», com cada cidadão agora ameaçado com uma taxa se quiser deslocar-se à «Europa». O exemplo é anedótico, mas sabemos há muito que na história a tragédia e a farsa andam próximas.
O ECFR que tanto nos elucida sobre esta UE é ele mesmo bem elucidativo. Criado em 2007, o seu núcleo fundador de 50 membros alargou-se até aos actuais 270. Ex-ministros, ex-deputados nacionais e europeus, gente com um relevante currículo na construção desta UE. Entidade certamente poderosa e, como é característico nesta UE, não eleita nem respondendo perante ninguém, os portugueses que o integram dizem tudo sobre a «perspectiva pan-europeia» de que tal Conselho se gaba: Luís Amado, Jaime Gama, Carlos Gaspar, Teresa Patrício Gouveia, Fernando Andresen Guimarães, Miguel Poiares Maduro, António Guterres, António Vitorino. O reaccionário centrão que nos trouxe à situação actual, da qual não há saída sem uma corajosa ruptura.
Resistir à chantagem será um passo decisivo.