Bilderberg na crise

Luís Carapinha

Perigosos tempos estes, de crescente irracionalidade

Da reunião anual de Bilderberg, este mês em Dresden, pouco rezam as crónicas. Contrariamente à célebre frase futebolística em que se diz que prognósticos só no fim do jogo, aqui só há notícias, escassas e anódinas, no início do opaco conclave. Tentando arejar a impregnada atmosfera de secretismo e contornar a indignação que vai rompendo o silêncio dominante, os organizadores (em que pontifica o magnata-patriarca Rockefeller) do evento que reúne figuras cimeiras e aspirantes a promoção da classe capitalista internacional, em especial dos dois lados do Atlântico, passaram a divulgar uma lista de participantes e temas. É claro que no quadro da globalização imperialista e de um capitalismo contemporâneo que cavalga os limites da financeirização existem, e vão surgindo, outras estruturas privadas de agenciamento estratégico do grande capital que se cruzam ou sobrepõem a Bilderberg. Aqui se contam a Comissão Trilateral e o Conselho de Assuntos Externos, mas também o obscuro grupo de trabalho de energia comercial e a rede política transatlântica – que integra alguns dos maiores bancos e transnacionais dos EUA e UE. Seria erro crasso exagerar o seu papel determinístico na realidade e destino mundiais, tanto quanto subestimar a sua existência e influência no pensamento e práxis imperialistas.

Por Bilderberg 2016 transcorre um roteiro de temas candentes da cena internacional, espelho de contradições e dilemas que assaltam as classes dominantes no contexto da mais grave crise desde o ciclo da grande depressão que desembocou na II Guerra Mundial. Lá estão laconicamente mencionados China, Rússia – o que equivale a acrescentar os BRICS e a rearrumação global de forças que tanto temor provocam – e Médio Oriente; o «cenário político e económico nos EUA» em ano eleitoral (com referência aos pontos sensíveis do «crescimento, dívida, reforma») e a «Europa» (em vésperas do referendo britânico sobre a UE), desdobrada nos aspectos da «migração, crescimento, reforma, visão, unidade». Outros temas da agenda ventilados: «geopolítica da energia e preços das matérias-primas», «inovação tecnológica» e «precariado e classe média». Este último, sintomático de um quase desespero de classe face ao processo de estreitamento da base social do capitalismo, que penetra bem dentro do coração do sistema. Não estamos em tempos de famejado welfare state, no longo rescaldo da 2.ª Guerra. Inseparável da sua crise, a reconfiguração neoliberal do capitalismo contemporâneo é sinónimo de um padrão social de inauditas desigualdades, destruição de direitos sociais conquistados, alastrante precariedade e intensificação da exploração no «centro capitalista». De renovados ataques à soberania nacional e recrudescimento de rivalidades; projecção da barbárie terrorista, neocolonialismo e escalada militarista. É este o pano de fundo real do cardápio que juntou Kissinger, Lagarde, Schäuble, Durão Barroso (que substituiu Balsemão no comité director e levou a Dresden M. Luísa Albuquerque e o CEO da GALP). No rol de 130 convidados de 20 países constam chefes de governo, ministros, dirigentes dos partidos do «centrão», falcões do Pentágono (os generais Petraeus, já retirado, e Breedlove), banqueiros, directores-executivos de multinacionais, dos media internacionais, etc., etc. Todos sabem que o neoliberalismo anda pelas ruas da amargura e caminha no limbo, mas insistem na hegemonia. Perigosos tempos estes, de crescente irracionalidade.

Por capricho de calendário três dias depois da reunião de Dresden, a 15 de Junho, a Reserva Federal optou por deixar inalterada a taxa de juro. Até ver. A parada é muita alta, a dívida dos EUA é insanável e a Reserva Federal manobra entre a espada e a parede. No dia seguinte foi assassinada a deputada trabalhista Jo Cox. É mais um golpe antidemocrático, em vésperas do referendo no Reino Unido. Uma coisa é certa: a luta de classes veio para ficar, nesta batalha em que, como nunca, está em jogo a humanidade.




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