Problemático?
Com a pesporrência que caracteriza as instituições do capital, o Commerzbank arroga-se o direito de se ingerir e admoestar um país soberano, vindo a público dizer que o «bom aluno» – Portugal esmagado pelas políticas do governo PSD/CDS –, se transformou numa «criança problemática» ao mudar de governo e ao encetar algumas mudanças de política.
Com a arrogância dos que estão habituados a impor a sua vontade, o Commerzbank vem dizer que as «crianças», neste caso Portugal, não podem brincar com fósforos, no caso vertente com essa coisa chamada democracia e o direito a decidir do próprio futuro. Isso é assunto para «adultos».
De notar que o que incomoda o Commerzbank não são as promessas eleitorais e o entendimento a que chegaram PS, PCP, BE e Verdes, mas sim o insólito facto de o Governo estar a «passar das palavras aos actos». Onde é que isto se viu?
As consequências, obviamente, só podem ser catastróficas e o banco alemão enumera o caminho do descalabro, citando, entre outras, as condenáveis medidas: regresso dos quatro feriados (sem sequer os tornar móveis, ou seja, encostados a fins-de-semana); a intenção de repor os 25 dias de férias por ano para os funcionários com elevada assiduidade; reversão dos cortes salariais na Função Pública; e, horror dos horrores, a «reversão da liberalização do mercado de trabalho, com o fortalecimento dos contratos coletivos de trabalho». De sublinhar que a «alteração das regras do mercado de trabalho e os custos mais elevados para as empresas» é considerada «ainda mais grave» do que as questões das contas públicas.
Afirmando que «todos os progressos obtidos nos últimos anos, com uma redução dos custos do trabalho que é importante para a atracção de investimento estrangeiro, estão em risco», o Commerzbank vai ao cerne da questão e revela o motivo da sua despudorada ingerência. Olhando para o futuro, que o mesmo é dizer se o Governo do PS vai ou não cumprir o programa com que se comprometeu, o banco realça a importância da eleição do Presidente da República. «Todas as sondagens apontam para a vitória do candidato apoiado pelos partidos que compunham o anterior governo, Marcelo Rebelo de Sousa, que deverá ter uma vitória clara», explica o banco aos clientes, assinalando que Marcelo «deverá evitar um confronto directo com a actual coligação de esquerda» (??!!), mas que «poderá equacionar tal decisão se houver conflitos persistentes». Para quem ainda tenha dúvidas, aqui está por que é preciso derrotar o candidato da direita. Sem problemas e muita confiança.