Os milhões, a bola e o resto

Vasco Cardoso

As últimas semanas do ano ficaram também marcadas por notícias bombásticas sobre as muitas centenas de milhões de euros que as operadoras de telecomunicações decidiram despejar nos principais clubes de futebol profissional. A discussão, tantas vezes inquinada quando o assunto é «bola», ficou reduzida a uma espécie de competição sobre qual dos clubes teria feito melhor negócio, com as habituais horas de comentário televisivo que normalmente se destinam a dissecar arbitragens e declarações de dirigentes, a serem substituídas por análises a contratos, mais ou menos contaminadas por fervores clubísticos .

Mas a dimensão destes «negócios» obriga a um olhar mais atento e profundo sobre o significado de, num país marcado por tão profundas dificuldades e injustiças, de repente jorrarem centenas de milhões de euros para dois ou três clubes de futebol.

Obriga a que se denuncie a profunda diferença entre as verbas aventadas para estes clubes e aquelas que o País disponibiliza, quer para a democratização da prática desportiva, quer mesmo para a competição, incluindo a alta competição, do conjunto das outras modalidades. Exige que se reflicta sobre a ligação entre a privatização da PT e a liberalização do sector das telecomunicações e as opções que hoje determinam os principais focos de investimento destas empresas, onde mais do que o necessário desenvolvimento tecnológico para as necessidades do país, se privilegia o desvio de verbas para actividades de natureza especulativa que dominam a intrincada rede de negócios do futebol profissional. Reclama que se denuncie que, na base destas «prendas» aos adeptos, está uma estratégia que visa a generalização do pagamento para o acesso aos mais elementares conteúdos de televisão, ao mesmo tempo que esse mesmo acesso é negados às camadas mais desfavorecidas da população (relembrar que uma parte do território nacional não tem ainda cobertura da chamada TDT). Impõe ainda que se vislumbre, para lá das parangonas dos jornais, todo o fluxo submerso e cruzado de interesses financeiros obscuros que se movimentam nestes negócios e que, mais tarde ou mais cedo, acabam por emergir em situações como aquelas que o povo português vem amargamente conhecendo como os casos do BES ou do BANIF.




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