Macacada
Passos Coelho, ar compungido, garantiu numa entrevista à RTP que ninguém martelou os números da devolução da sobretaxa do IRS, jurando a pés juntos que não sabe o que aconteceu para se ter passado do anúncio de que os portugueses iriam ver devolvidos cerca de 36 por cento da dita sobretaxa, feito em plena campanha eleitoral, para a expectativa de não haver devolução nenhuma, assumida agora, depois das eleições, possibilidade para a qual, aliás, o PCP alertou em devido tempo, denunciando a demagogia da iniciativa com que o governo PSD/CDS quis desculpar o carregar, uma vez mais, nos impostos sobre quem trabalha.
O Expresso, sempre pronto a explicar estas incongruências, logo informou que Passos estava «incomodado» e que Maria Luís Albuquerque, a ainda ministra das Finanças, se encontrava «incrédula». Um e outro estarão «surpreendidos», e tornam a jurar, por aqueles que lhes são mais queridos, que não faziam ideia nenhuma disto quando, corria o mês de Setembro e as eleições estavam à porta, o candidato Passos Coelho anunciava que havia «a expectativa, dada a evolução da receita do IVA e do IRS, de que conseguiremos até ao final do ano ter fechado um valor de devolução muito significativo».
Compreende-se o incómodo. É que a devolução de parte da sobretaxa estava, desde a primeira hora, condicionada à recolha de impostos. E os impostos em geral dependem da actividade económica, e o IRS depende do emprego em particular. Ora como eles têm dito que isto vai tudo de vento em popa, que há mais emprego, mais exportações, mais produção, ninguém perceberá (eles pelo menos não poderiam dizer de outra forma!) como é que chegámos aqui.
Pegue-se por onde se pegar, este assunto tresanda! O menos fedorendo dos aspectos ainda é o de ser um dirigente do CDS – o dito partido dos contribuintes – o titular desta pasta, para quem agora hão-de querer empurrar a responsabilidade exclusiva por esta moscambilha.
Em boa verdade o que toda esta situação revela é a falta de vergonha daqueles que, ainda que por poucos dias, continuam com a possibilidade de decidir algumas coisas dos destinos do País.
E Cavaco está como os macacos da lenda. Não vê, não ouve, não fala...