Síria

Pedro Guerreiro

Ensaia-se um novo passo na ingerência e agressão

A decisão da Federação Russa de apoiar militarmente a Síria, face à brutal agressão executada por grupos que são usados para espalhar a morte, o horror e a destruição, contribuiu para expor o embuste e a cínica duplicidade dos EUA e dos seus aliados da NATO e no Médio Oriente, que anunciando «combater o terrorismo», na realidade o promovem, financiam e armam – como acontece com toda a panóplia de grupos armados que actualmente se agregam em torno do denominado «Estado Islâmico».

No entanto, a premeditada e grave provocação protagonizada pela Turquia ao abater um avião militar da Rússia na Síria – tanto mais, quando as autoridades russas afirmam que este não violou o espaço aéreo da Turquia –, assume um clarificador e perigoso significado, colocando em evidência o suporte e apoio da Turquia à acção terrorista dos grupos armados na Síria e levantando a questão de até onde o imperialismo está disposto a ir face à obstinada resistência e luta do povo sírio em defesa da sua soberania, da independência e integridade territorial do seu Estado.

Recorde-se que a Turquia que abateu o avião militar russo, alegadamente, por violação do seu espaço aéreo, foi e é das mais acérrimas defensoras da imposição de uma dita «zona de exclusão aérea» na Síria – similar à que foi imposta à Líbia, com os resultados que se conhecem. Registe-se ainda a cumplicidade e cobertura dada pela NATO a esta acção da Turquia.

Se perguntarmos qual dos aliados dos EUA – de França a Israel, do Reino Unido às ditaduras do golfo – é que terá cumprido, ao longo dos últimos cinco anos, o papel central na operação de desestabilização e agressão à Síria e ao seu povo, certamente, a Turquia assume lugar cimeiro. Desde o primeiro momento, a Turquia – membro da NATO –, ingeriu-se activamente na situação da Síria, desrespeitando, afinal, o direito internacional que hipocritamente apregoa.

A Turquia, à semelhança de outros países, foi utilizada para servir de base e dar suporte aos diversos grupos armados – que integram milhares de mercenários – a quem foi atribuída a concretização do objectivo da destruição do Estado sírio e da pilhagem dos recursos e do património do seu povo. Uma gigantesca pilhagem que, alimentando todo o género de tráficos e tendo na Turquia um seu receptor, é uma das fontes de financiamento dos grupos armados. Pilhagem e financiamento que foram denunciadas pelo presidente da Federação Russa na recente Cimeira do G20 que se realizou, precisamente, na Turquia.

Perante a resistência da Síria e o apoio concertado da Rússia, do Irão e do Iraque à sua luta, na sequência dos atentados de Paris e a pretexto do combate ao grupo «Estado Islâmico», ensaia-se um novo passo na ingerência e agressão do imperialismo contra a Síria visando impor a sua partição, colocando em causa a sua integridade territorial – à semelhança do que aconteceu com a agressão ao Iraque e à Líbia.

Isto é, ao contrário de terminar o seu apoio político, financeiro e militar directo ou indirecto aos grupos terroristas e pôr fim à instrumentalização destes para agredir a Síria e o Iraque e desestabilizar a região, os EUA e os seus aliados insistem na estratégia de guerra contra todos aqueles que não se submetem aos projectos do imperialismo. Escalada belicista que a não ser travada e derrotada, significará novos perigos e trágicas consequências para os povos, nomeadamente do Médio Oriente.

Como o PCP tem salientado, o fim da escalada de violência que ameaça arrastar o povo da Síria para um ainda maior desastre, exige o respeito pela sua soberania e independência nacionais e não novas aventuras belicistas, de que Portugal, no respeito pela sua Constituição e pela Carta das Nações Unidas, se deve resolutamente desvincular e firmemente condenar.




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