Prémios e deméritos da Teleperformance
O estímulo à «bufaria» foi tornado público pelo CESP
A contrastar com os seis prémios de «great place to work» («melhor local para trabalhar») que a filial portuguesa da multinacional Teleperformance já recebeu, o Sindicato do Comércio, Escritórios e Serviços (CESP/CGTP-IN) aponta as condições que a empresa oferece a quem trabalha nos seus call-centers (centros de contacto), designadamente:
– contratos de sete dias, celebrados através de uma empresa de trabalho temporário e renovados automaticamente por igual período; numa sala com cem trabalhadores, só cinco têm um vínculo efectivo;
– salário mínimo, que pode nunca ser alterado, porque não há carreira profissional;
– uma casa-de-banho para mais de 200 trabalhadores, salas com péssima iluminação e sem janelas, com alcatifas que acumulam ácaros;
– ritmos de trabalho desumanos e exigindo dos trabalhadores que desempenhem funções para que não foram contratados;
– um ambiente de constante ameaça e muita repressão.
Num comunicado que distribuiu aos trabalhadores no final de Abril, o CESP destaca ainda que em funções permanentes são colocados trabalhadores com vínculos precários e que nos contratos «a empresa inclui cláusulas relativas ao horário de trabalho que significam que o trabalhador prescinde logo do seu direito à conciliação entre a vida profissional e a vida pessoal e familiar».
Para «combater as ilegalidades e fazer cumprir os direitos», o sindicato apela à unidade e organização dos trabalhadores.
Brisa ilegal
Vasco de Mello, presidente da Brisa e do Grupo José de Mello, foi apontado pelo CESP como «o primeiro responsável» por «uma acção global de discriminação» desencadeada pela concessionária de autoestradas contra «a maioria esmagadora dos trabalhadores». O sindicato tinha feito uma primeira denúncia pública, num comunicado de 24 de Abril, em que acusou a Brisa de ter um comportamento «ilegal e criminoso». Uma carta-aberta a Vasco de Mello foi publicada dia 29, na imprensa diária, exigindo medidas para corrigir o comportamento da administração da Brisa.
No dia 20, a empresa apresentou propostas para fecho da negociação do acordo colectivo de trabalho, que apenas as estruturas da UGT aceitaram. O CESP não aceitou mas declarou que iria ouvir os trabalhadores e convocou reuniões para 22, 23 e 24 de Abril. Entretanto, foi surpreendido com a informação de que a Brisa teria instruído os encarregados e estes estavam a informar os trabalhadores não sindicalizados e os associados do CESP de que não receberiam os retroactivos da actualização salarial e o prémio anual, decididos por acto de gestão e constantes do «acordo», a não ser que assinassem uma «adesão» à revisão do acordo colectivo de trabalho e declarassem não ser sócios de qualquer sindicato.
Desta forma, a Brisa quis «condicionar a opinião dos trabalhadores», acusa o CESP, na carta a Vasco de Mello, explicando os motivos por que o sindicato «não está nas boas graças» da empresa: exige uma melhor distribuição da riqueza; recusa corte de férias e de remunerações; contesta a rescisão de contratos de trabalho de centenas de trabalhadores, que deixou sem cobrança manual numerosas barreiras de portagem; e opõe-se às transferências de local de trabalho, usadas «para cansar, saturar e obrigar os trabalhadores a rescindir».