No topo da exploração
A merecer o comentário de Jerónimo de Sousa esteve ainda a afirmação do primeiro-ministro de que «Portugal vai ser uma das nações mais competitivas do mundo», palavras ditas uma semana antes no Japão e repetidas na véspera do debate.
Uma declaração carregada de «presunção e água benta», admitiu o líder comunista, não se soubesse o que «quer significar e o que tem por trás». Quis saber por isso o que está o Executivo a pensar fazer para garantir e justificar tal afirmação. «É desenvolver a nossa capacidade científica?», indagou, sabendo de antemão não ser essa a resposta, tendo em conta o historial de um Governo que empurrou «milhares de cientistas portugueses para o estrangeiro, pondo em causa a renovação e alargamento da “infra-estrutura” humana, técnica e científica, elemento fundamental da produção»
E prosseguiu: «É o investimento na ciência e na educação, que estão sujeitos a cortes e mais cortes? É no desenvolvimento tecnológico, quando toda a política está orientada para encerrar unidades de investigação, para a destruição dos laboratórios nacionais e outras infraestruturas públicas de investigação e desenvolvimento?»
Interrogou-se, ainda, com ironia, se acaso Passos Coelho não estaria a pensar na «melhoria do contexto favorável à produção do conjunto das actividades económicas», ou seja, à «redução dos altos preços da energia, dos combustíveis, dos transportes, do preço do dinheiro».
Ora sendo estas reconhecidamente questões de fundo, Jerónimo de Sousa não deixou de reparar que sobre as mesmas Passos Coelho não dissera uma palavra. O que não estranhou, convicto que está de que a fixação do chefe do Governo – que por má gestão já deixara esgotar o seu tempo de resposta – está em prosseguir a «transferência maciça de rendimentos do trabalho para os grandes grupos económicos e financeiros, designadamente através dos cortes nos salários, das alterações à legislação laboral, das políticas de desvalorização da força de trabalho.
E porque esta é uma política geradora de um «exército de desempregados que pressiona os que têm emprego», Jerónimo de Sousa voltou a condená-la com veemência, acusando o Governo de «colocar Portugal não no topo do ranking da competitividade, mas no topo do ranking da exploração e do empobrecimento».