No descrédito

Henrique Custódio

O não-pagamento de impostos tornou-se a Avantesma do primeiro-ministro Passos Coelho, mal acabado de gargantear a presunção de uma «maioria absoluta» nas próximas eleições. Pela desavisada suposição de ganhar uma maioria, bem pode ficar sentado à espera, na derrogação em que se encontra perante o País após o desastre – por si próprio gerado, diga-se – com a falta de pagamento à Segurança Social de vencimentos a recibo verde durante cinco anos sucessivos e outros contenciosos com o Fisco, na esfera do IRS.

Se já era grave que um primeiro-ministro houvesse descurado a regularização da sua vida contributiva, asneira irrefragável constituiu o lote de explicações desencoviladas pelo chanceler, indo da sobranceria a recusar explicar-se por se tratar de um «assunto particular», passando pela dramatização de que «ele e a família» estavam de peito aberto «para estes e outros ataques» e desembocando num possidónio «exercício de humildade» onde, admitindo que não é um «cidadão perfeito», deixa inferido que exige que o compreendam e desculpem.

Tudo isto é intolerável e, sobretudo, inadmissível num primeiro-ministro que realizou a mais brutal e impiedosa colecta de impostos da História democrática do País, tangida por um moralismo inquisitorial que se propunha «pôr nos eixos» um País de «relapsos». Se já estava desacreditado do Continente às Ilhas pelo esmiframento minucioso dos trabalhadores, reformados, famílias inteiras e carenciados, numa razia com mecanismos coercivos e retaliatórios ao nível do capitalismo selvagem das máquinas a vapor, agora Passos Coelho nem já pode esconder-se atrás do figurino que construiu de si próprio – o do «homem sério» e «corajoso», que tudo pode exigir aos outros.

Mordeu o seu próprio anzol quando, algures no ano passado e a propósito precisamente das fugas ao pagamento da Segurança Social, tonitruou à Pátria que «homens sérios como ele» não fugiam às suas obrigações fiscais.

Jamais poderá repetir a afirmação sem provocar ondas de riso, na melhor das hipóteses.

No descrédito – este sim, irrevogável – também se afundou a maquinaria aparelhada para dele transmitir uma imagem de homem rigoroso e severo, caucionado para impor exigências duras. A partir de agora, a adjectivação ao primeiro-ministro começa por «contumaz» e vai por aí fora, em verbetes populares bem mais perfurantes.

O apoio do Presidente Cavaco ao chanceler Passos exibiu uma linha de raciocínio de militante do PSD – como anotou Jerónimo de Sousa – não cuidando, sequer, da aparência formal de independência, que se espera de um Presidente da República.

Reduzir a questão a «luta político-partidária» seria uma coisa a esperar de ultramontanos «laranjas», mas nunca do Mais Alto Magistrado da Nação – de que, em facto, Cavaco Silva há muito se desinvestiu.




Mais artigos de: Opinião

Com a Revolução bolivariana!

Como tem sido sublinhado, seria um erro minimizar o significado e alcance do anúncio de Obama de que a Venezuela representa uma «ameaça inusual e extraordinária à segurança nacional e à política externa dos Estados Unidos». A grave declaração...

O perfil de Cavaco

No prefácio aos «Roteiros IX», Cavaco Silva lança, no seu conhecido estilo paternalista, o debate público sobre a questão do «perfil» do próximo Presidente da República. Com esta decisão Cavaco faz, como sempre tem feito, o jogo da...

Os mil milhões

Os lucros anuais da EDP têm estado acima dos mil milhões de euros pelo menos desde 2005. O ano de 2014 não fugiu à regra e de acordo com os resultados divulgados na semana passada terão atingido os 1078 milhões de euros. Ao todo, entre 2005 e 2014, estaremos a falar de cerca de 10...

Tríptico da Utopia – I

Parece que foi há muito tempo, mas foi apenas há sete anos. Uma onda varreu os Estados Unidos, «Yes, We Can!»a – Sim, Podemos! – e Barack Obama foi eleito presidente. Na tomada de posse, Springsteen e Seeger cantam um velho hino de Woody Guthrie, proibido durante décadas por...

É que vale mesmo a pena!

O ano de 2015 leva ainda pouco mais de dois meses e eis os trabalhadores, as populações e a juventude na luta diária pelo seu presente sabendo que essa é a forma mais segura de garantir o seu futuro.