A hipocrisia de Juncker

O presidente da Comissão Europeia e antigo presidente do Eurogrupo reconheceu, dia 18, que «falta legitimidade democrática» à troika e que a Europa atentou «contra a dignidade» dos países intervencionados.

«Pecámos contra a dignidade dos povos, especialmente na Grécia, em Portugal e também na Irlanda. Eu era presidente do Eurogrupo e pareço estúpido em dizer isto, mas há que retirar lições da história e não repetir os erros», disse Jean-Claude Juncker, em declarações no Comité Económico e Social Europeu, em Bruxelas.

Na anterior Comissão Europeia, presidida por José Manuel Durão Barroso, «nem se discutia» a Grécia, porque se «confiava cegamente na troika», revelou Juncker. «A troika é pouco democrática, falta-lhe legitimidade democrática e devemos rever essa questão quando chegar o momento», acrescentou.

Segundo Juncker os responsáveis nacionais que negociaram com a troika queixaram-se de ter de lidar com funcionários e não com políticos. «Não critico os altos funcionários, mas não se coloca um alto funcionário face a um primeiro-ministro ou a um ministro das Finanças», disse, considerando que o interlocutor deverá ser um comissário ou um ministro «que tenha autoridade no Eurogrupo».

Reacção do PCP

O PCP reagiu a estas declarações através da seguinte nota do gabinete de imprensa, emitida dia 19:

«O atentado contra a dignidade dos portugueses, gregos e irlandeses que resulta da aplicação dos denominados memorandos nos seus países reside não numa mera questão formal, mas sim no conteúdo político de tais memorandos.

«O que está em causa nestas declarações é, perante a generalizada condenação da sua nefasta acção, a tentativa de prosseguir a política da troika sem troika, já que nenhuma das políticas da União Europeia foi questionada, tendo mesmo sido afirmado que as políticas ditas de “consolidação das finanças públicas” devem continuar.

«Aliás, o que Juncker parece sugerir é que se deverá passar de uma troika para um quarteto, com um papel mais visível para o Eurogrupo.

«Importa lembrar a hipocrisia das declarações em causa, quando são bem conhecidas as responsabilidades que Jean-Claude Juncker teve nos programas de intervenção da troika, enquanto presidente do Eurogrupo.

«O PCP reafirma que só uma política alternativa, patriótica e de esquerda, capaz de assumir a ruptura com os ditames da União Europeia, pode promover o desenvolvimento económico e social e o progresso, e romper com o caminho de declínio para onde o País foi arrastado.»

 



Mais artigos de: Europa

Acordo condicionado

Após três semanas de pressões e chantagens, os ministros das Finanças da zona euro acordaram conceder à Grécia a extensão do programa de assistência por quatro meses.

PCP denuncia chantagem<br>sobre a Grécia

O PCP denuncia todo o processo de chantagem, pressão e imposição que rodeia o acordo agora anunciado, em que fica bem patente a hipocrisia da União Europeia e dos seus principais responsáveis. Independentemente de ulterior análise ao conteúdo e consequências...

Golpe de força

O primeiro-ministro francês, Manuel Valls, decidiu aprovar por decreto, dia 18, a chamada «lei Macron», que dividiu a bancada da maioria.

 

Pobreza na Alemanha

Mais de 12,5 milhões de pessoas vivem abaixo do limiar da pobreza na Alemanha, segundo um relatório, divulgado dia 19, por uma associação de assistência social. «Desde 2006 que se observa claramente uma tendência perigosa de aumento da pobreza», declarou Ulrich...

O impasse grego e a ditadura do Eurogrupo

«O PCP reafirma que a solução da profunda crise económica e social, que afecta a generalidade dos estados membros da União Europeia, só pode ser resolvida por via de uma ruptura com as suas políticas e orientações, nomeadamente a União...