Convívios e confissões

Jorge Cordeiro

O convívio entre amigos e comparsas tem aquela virtude de soltar a língua. É assim que se compreenderá a clareza com que Pires de Lima foi a Davos tranquilizar os centros do capital transnacional quanto àquilo que imagina desejável para Portugal num futuro próximo. Prestando contas a quem o comanda e ao serviço de quem está, assegurou, certamente com fundamentos que não se subestimam, estar garantido um acordo político para «continuar a agenda reformista depois das eleições». Descodificado que seja aquilo que Pires de Lima designa de agenda reformista – liquidação de direitos, intensificação da exploração, condenação do País e dos portugueses ao empobrecimento, reconfiguração do Estado ao serviço do capital monopolista – registe-se a segurança com que o ministro assegura que «em Portugal há um compromisso para continuar essa agenda e que depois das eleições vai haver entendimentos importantes». Diz Pires de Lima que ganhe a actual maioria ou ganhe o PS, que aprovou o Tratado Orçamental como fez questão de recordar, está garantido que a «agenda europeia» será cumprida e não ameaçada. Partindo do princípio de que cada um responde pelo que diz, outras ilações que não fossem o mero registo daquelas afirmações seriam tomadas por especulativas. Assim não será. Lendo ou ouvindo o que o PS tem aduzido sobre a matéria está longe de poder ser considerada abusiva uma relação de nexo entre o que Pires de Lima afirmou e as motivações socialistas. As declarações de António Costa aquando do encontro realizado com o PSD quanto a uma proclamada «estratégia comum para o futuro» e a necessidade de «uma grande convergência sobre aquilo que deve ser o futuro do País» cola com o que o ministro disse e casa com o que será a estratégia eleitoral do PS: a de sob a capa da recusa de acordos pré-eleitorais alimentar a promoção de uma maioria que, a pretexto de uma alegada governabilidade, se prepara para pedir votos à esquerda para os empenhar na política de direita e em novos entendimentos com o PSD. Um filme que embora já visto e reposto terá nas afirmações Pires de Lima a virtude de avivar memórias e blindar portas a novas ilusões e falsas saídas.




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