O Pires
O ministro Pires de Lima descobriu a sua Demanda – a privatização da TAP.
Nas últimas semanas já repetiu uma dúzia de vezes que «a privatização é definitiva», em vários registos e sob uma linha subjacente e comum: a de um irreprimível autoritarismo.
A questão foi-se agudizando com a resistência dos trabalhadores da TAP não só à degradação das condições de trabalho e de contratação, como aos súbitos planos do Governo de a privatizar a toda a pressa e sem salvaguarda dos vários interesses nacionais envolvidos, o que culminou na declaração de uma greve geral no final do ano, subscrita por todos os trabalhadores da companhia (acima de 13 mil) representados em doze sindicatos, alguns até filiados na UGT.
E os protestos começaram a generalizar-se, confluindo num ponto de vista envolvendo diversas personalidades, associações ou partidos: esta privatização da TAP é nebulosa, precipitada, sem garantias e em final de mandato, pelo que deve ser adiada para depois das próximas eleições.
E de repente tudo se precipitou: o Governo engrossou a voz, o próprio chanceler falou em requisição civil e «garantiu» que «a decisão do conselho de ministros» a aprová-la «não cometia nenhuma ilegalidade» – o que dá confiança de alto coturno, vindo de quem vem.
Esta obsessão repentina em privatizar a TAP no fim do mandato, com o Governo em cacos e tão desacreditado como um vendedor de chuva no Sahara, já faz muita gente suspeitar de uma «agenda escondida» a satisfazer a todo o custo, porventura muito útil a quem joga nestes casinos, mas decerto doloso para o País nas próximas gerações.
É aqui que o trajecto de Pires de Lima se estatela.
O filho do ex-bastonário dos advogados havia coligido opiniões favoráveis à sua vida discreta de empresário das cervejas que falava pouco e, nas vezes em que o fazia no PP era «com ponderação», o que, na linguagem da Direita, significa opor-se mansamente a esta ou àquela posição das lideranças a mostrar-se disponível «para futuro» (como diz Passos).
O futuro bateu-lhe à porta com a nomeação para ministro da Economia e, durante uns meses, passeou-se diante das câmaras exudando o prazer de ser ministro e carreando o boato de também ser «ponderado».
Até que começou a abrir a boca. A estreia foi na AR e tornou-se um must quando invectivou António Costa sobre «as taxas e as taxinhas» da CML usando um tom picaresco e arrastado. E a coisa piorou, pois o «picaresco arrastado» parece ter-se-lhe tornado uma referência: ora garganteia de novo na AR, ora determina, pausado, solene e vagamente ameaçador a requisição civil na TAP.
É uma espécie de ministro em zigue-zague.
Ramalho Ortigão, um «Mestre das Letras» no século XIX, escreveu por volta de 1870 uma diatribe contra o poema Esplêndida, de Cesário Verde, terminando a dizer-lhe: «Cesário Verde, seja mais Cesário e menos Verde!».
Parafraseando Ramalho, podemos dizer: «Pires de Lima, seja mais Lima e menos Pires!».