Uma greve pela TAP e pela pátria

Vasco Cardoso

A dra­ma­ti­zação pro­mo­vida pelo go­verno em torno da greve na TAP mar­cada para o final do ano teve o des­fecho pre­vi­sível com o ac­ci­o­na­mento da cha­mada re­qui­sição civil. No final desse dia em que o con­selho de mi­nis­tros anun­ciou tal me­dida, os no­ti­ciá­rios da noite dos ca­nais de te­le­visão ge­ne­ra­listas e de in­for­mação abriram as portas aos mem­bros do go­verno. Mi­nis­tros e se­cre­tá­rios de Es­tado des­do­braram-se em de­cla­ra­ções pú­blicas, pro­lon­gando o rol de men­tiras e de hi­po­crisia que tem ro­deado esta luta, con­tando ainda com o im­por­tante su­porte de um ver­da­deiro exér­cito de co­men­ta­dores, ana­listas e opi­na­dores di­versos que en­charcam os ór­gãos de co­mu­ni­cação so­cial com as suas de­cla­ra­ções que, até po­dendo em al­guns mo­mentos pa­recer dis­tantes dos ob­jec­tivos do go­verno, ra­ra­mente se de­sa­li­nham com os in­te­resses de classe a que a po­lí­tica de di­reita vo­lun­ta­ri­a­mente se sub­mete.

Na ver­dade, a cam­panha a que as­sis­timos nos úl­timos dias foi a todos os tí­tulos ver­go­nhosa. A greve que dei­xaria mi­lhares de por­tu­gueses longe das suas fa­mí­lias logo no Natal, a greve que pre­ju­di­caria o tu­rismo, a greve que daria mi­lhões de euros de pre­juízos, a greve que ar­rui­naria a TAP, a greve contra o País. Tal cam­panha, as­sente na mais des­ca­rada men­tira e ma­ni­pu­lação, es­condeu pre­po­si­ta­da­mente os mo­tivos da greve e as con­sequên­cias da pri­va­ti­zação que está em curso para não só le­gi­timar as de­ci­sões do go­verno, mas também para con­denar e cri­mi­na­lizar não apenas esta luta mas as pró­ximas que se se­guirão.

Cons­ci­entes de que com a (essa sim, cri­mi­nosa) pri­va­ti­zação aquilo que lhes es­pera é mais de­sem­prego, mais pre­ca­ri­e­dade, ex­plo­ração, mas também a pró­pria li­qui­dação a prazo da em­presa, a luta destes tra­ba­lha­dores em geral e par­ti­cu­lar­mente a greve que está mar­cada é, ao con­trário da acção do go­verno, uma luta e uma greve pa­trió­ticas cujo al­cance se liga in­ti­ma­mente à de­fesa dos in­te­resses na­ci­o­nais.

À me­dida que se apro­funda a po­lí­tica de di­reita e de re­cons­ti­tuição mo­no­po­lista mais claro vai fi­cando que a de­fesa dos in­te­resses na­ci­o­nais é in­se­pa­rável da de­fesa dos in­te­resses dos tra­ba­lha­dores, que a questão na­ci­onal é in­se­pa­rável da questão de classe, que a luta por uma po­lí­tica de es­querda, é em si mesmo, uma luta em de­fesa da so­be­rania e da pá­tria.




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