Uma vitória

Jorge Cadima

O apoio a Cuba tornou-se esmagador

As declarações de Raúl Castro e Obama anunciando a libertação dos patriotas cubanos e o reatamento das relações diplomáticas entre Cuba e os EUA mereceram natural destaque. Usou-se muito a palavra «histórico». E é verdade que se trata duma importante vitória da Revolução Cubana. Altera-se a política dos EUA que, há mais de cinco décadas, procurava isolar e estrangular a insubmissa e soberana ilha caribenha. Ilha que ousou libertar-se e construir o socialismo às portas da maior potência imperialista do planeta. Por entre todas as dificuldades, e graças ao heroísmo e resistência do povo cubano, dos seus dirigentes e de heróis como os Cinco, e graças à solidariedade internacionalista que sempre acarinhou a Revolução, Cuba não apenas resistiu como se transformou em farol de esperança, inspirando toda uma série de revolucionários e dirigentes latino-americanos, como Hugo Chávez. A insubmissão animou a resistência e luta de todo um continente, e em todos os continentes.

A viragem na política dos EUA representa o reconhecimento dum fracasso. Foi, aliás o próprio Obama a reconhecer esse facto ao afirmar que «os últimos 50 anos mostraram que essa [dos EUA] política falhou, é tempo de experimentar uma nova abordagem». O bloqueio a Cuba foi, nos últimos anos, um dos temas nos quais a super-potência imperialista mostrava o seu isolamento (não o de Cuba). Há muitos anos que a Assembleia Geral da ONU pedia o levantamento do embargo a Cuba e que os EUA ficavam isolados na oposição a essas resoluções (com a pouco recomendável companhia de Israel). Tal como estão isolados no seu apoio permanente e sem hesitações ao terrorismo do Estado sionista. O apoio a Cuba tornou-se esmagador entre os governos latino-americanos, tanto que a OEA (de onde os EUA haviam imposto a exclusão de Cuba) foi secundarizada e hoje são os EUA que têm dificuldades em estar presentes nas cimeiras das américas.

Mas não há que ter ilusões quanto a uma viragem de fundo na política dos EUA em relação a Cuba. O bloqueio económico continua, como Raúl Castro fez questão de salientar. E toda a realidade do planeta, no passado e nos dias de hoje, nos diz que a conspiração, a política de agressão, subversão e guerra, faz parte do código genético do imperialismo – e em particular do imperialismo norte-americano. Há novas sanções de Washington contra a Venezuela. Talvez haja divisões tácticas no seio da classe dirigente dos EUA, uma potência imperial em declínio, mas armada até aos dentes. Mas seja pela «nova abordagem», seja pela velha, estão unidos no objectivo de fazer regressar Cuba e toda a América Latina à condição de vassalagem e subordinação. Não há milagre do Papa Francisco que seja capaz de mudar essa realidade. Apenas a luta dos povos, incluindo a do martirizado povo americano, vítima desde há décadas dum empobrecimento generalizado, da discriminação racial e duma repressão policial cada vez mais feroz e sem freios.

A vitória cubana é importante. Mas a luta continua. Até porque a verdade é que em território cubano usurpado há presos que se encontram detidos há muitos anos sem qualquer condenação ou mesmo julgamento – e mesmo sem qualquer acusação formal. Muitos deles foram raptados, estão incomunicáveis e à margem de qualquer sistema judicial digno desse nome. Presos que são torturados. Tudo isto se passa hoje na base militar dos Estados Unidos em Guantanamo. Uma base construída em território cubano ocupado e que o Governo de Cuba desde há muito reivindica. Uma base que faz parte do vasto arCIApélago da tortura cuja existência é reconhecida pelo Senado dos EUA. E que alastra os seus tentáculos a países como a Polónia e a Lituânia onde, há 25 anos atrás, chegou a «liberdade» imperialista. Há, pois, muito a fazer para assegurar o regresso dos direitos humanos e da legalidade internacional a todo o território cubano, aos EUA e a todo o planeta. A feroz máquina de guerra e de agressão norte-americana que continua a semear a morte, a destruição e o terror terá de ser derrotada.




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