Capitalismo e corrupção

Albano Nunes

A cor­rupção é ine­rente ao fun­ci­o­na­mento do sis­tema ca­pi­ta­lista

Os casos de cor­rupção en­vol­vendo as altas es­feras do poder eco­nó­mico e do poder po­lí­tico, tor­naram-se tão fre­quentes que a fi­gura do ran­king está já a ser uti­li­zada (no­tí­cias de 3.12.14), para clas­si­ficar os países como se de um ín­dice macro eco­nó­mico se tra­tasse. Nesse ran­king Por­tugal ocu­paria a 34.ª po­sição o que não seria assim tão mau. Além disso, anota-o por exemplo o Pú­blico de 30.11.14 a pro­pó­sito da prisão pre­ven­tiva de José Só­crates, há «ou­tros casos de di­ri­gentes po­lí­ticos eu­ro­peus en­vol­vidos em ques­tões le­gais por cor­rupção ou prá­ticas se­me­lhantes», lem­brando fi­gu­rões como An­dre­otti, acu­sado pelas suas li­ga­ções com a Máfia, já fa­le­cido, ou Ber­lus­coni e Sar­kozy que, apesar de todos os es­cân­dalos, con­ti­nuam em plena ac­ti­vi­dade po­lí­tica, com o úl­timo a po­si­ci­onar-se para re­gressar à chefia do Es­tado francês.

Sem ajuizar sobre as in­ten­ções de tais no­tí­cias, que com frequência tendem a re­la­ti­vizar si­tu­a­ções, di­luir res­pon­sa­bi­li­dades, ba­na­lizar com­por­ta­mentos, de­rivar para o ter­reno moral ques­tões que na sua es­sência são de na­tu­reza po­lí­tica e de classe, o que aqui se quer evi­den­ciar é algo que a co­mu­ni­cação so­cial en­feu­dada ao ca­pital sempre pro­cura es­conder. Ou seja, que no caso da ac­tu­a­li­dade por­tu­guesa a raiz do pro­blema re­side na pró­pria po­lí­tica de di­reita que, como o Se­cre­tário-geral do PCP tem su­bli­nhado, é se­mente e adubo do rol de casos de cor­rupção que têm vindo a pú­blico. E que, fa­lando de cor­rupção, é da pró­pria na­tu­reza do ca­pi­ta­lismo que es­tamos a falar, um sis­tema fun­dado na ex­plo­ração, na cor­rida ao má­ximo lucro, na con­cor­rência de­sen­freada, nos va­lores do in­di­vi­du­a­lismo e do salve-se quem puder, um sis­tema que per­ma­nen­te­mente ali­menta com­por­ta­mentos ilí­citos, imo­rais (mas vul­gares e per­fei­ta­mente acei­tá­veis à luz da moral bur­guesa) e cri­mi­nosos.

Nada disto é novo. Foi des­ven­dado por Marx na sua aná­lise do ca­pi­ta­lismo. E Lé­nine, ao ca­rac­te­rizar o im­pe­ri­a­lismo, su­bli­nhou que a fusão do ca­pital ban­cário e do ca­pital in­dus­trial dando lugar ao ca­pital fi­nan­ceiro e à cres­cente fusão do poder eco­nó­mico e do poder po­lí­tico, acen­tu­a­riam ne­ces­sa­ri­a­mente a na­tu­reza ex­plo­ra­dora e a de­ca­dência do sis­tema. Hoje, quando de­vido ao de­sa­pa­re­ci­mento da URSS e do so­ci­a­lismo como sis­tema mun­dial as taras e con­tra­di­ções do ca­pi­ta­lismo se ma­ni­festam li­vre­mente, e quando o pro­cesso de acu­mu­lação ca­pi­ta­lista evi­dencia com ni­tidez os efeitos da lei da baixa ten­den­cial da taxa de lucro, as­sis­timos à as­censão sem freios do do­mínio do ca­pital fi­nan­ceiro (acen­tuado por uma crise cí­clica de so­bre­pro­dução e so­bre­a­cu­mu­lação que se pro­longa sem fim à vista) com a ace­le­ração do ca­rácter es­pe­cu­la­tivo, ren­tista e pre­dador dos grandes grupos eco­nó­micos e fi­nan­ceiros que do­minam a eco­nomia mun­dial.

A cor­rupção é sis­té­mica. É algo ine­rente ao fun­ci­o­na­mento do sis­tema ca­pi­ta­lista. Não se toca nos offshore nem se avança se­quer na ta­xação dos mo­vi­mentos de ca­pi­tais es­pe­cu­la­tivos porque isso não é com­pa­tível com a prá­tica ge­ne­ra­li­zada de fa­vores, de luvas, de bran­que­a­mento de ca­pi­tais in­dis­pen­sá­veis aos grandes ne­gó­cios que, num quadro de aguda con­cor­rência inter-mo­no­po­lista e inter-im­pe­ri­a­lista, vão do ar­ma­mento e da droga à pri­va­ti­zação dos ser­viços pú­blicos. A questão, tendo uma óbvia com­po­nente moral ge­ral­mente agi­tada pela classe do­mi­nante para pro­mover sal­va­dores «im­po­lutos» e so­lu­ções anti-de­mo­crá­ticas, é so­bre­tudo uma questão po­lí­tica e cons­titui uma razão mais para a luta pela al­ter­na­tiva ao sis­tema ca­pi­ta­lista, o so­ci­a­lismo e o co­mu­nismo.

 



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