Milhão e meio nas ruas de Itália em greve geral

«Assim não pode ser!»

Os trabalhadores italianos aderiram massivamente à greve geral de oito horas convocada, dia 12, pela CGIL e UIL, contra as políticas anti-sociais do governo de Matteo Renzi.

Renzi liberaliza despedimentos e ataca sindicatos

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A greve geral decorreu sob o lema «Così Non Va!» («Assim não pode ser!») e foi a primeira paralisação nacional, desde o pós-guerra, contra um governo que se diz de «centro-esquerda».

Foi também a primeira convocada conjuntamente pela Confederação Geral do Trabalho (CGIL) e a União Italiana do Trabalho (UIL), estrutura criada em 1950. Por seu turno, a Confederação Italiana dos Sindicatos dos Trabalhadores (CISL), de inspiração católica e segunda maior central italiana, não apoiou a jornada.

Os sindicatos estimaram uma adesão global de 70 por cento. Os protestos tiveram particular visibilidade em Roma, Milão e Turim, bem como outras 50 cidades, onde milhão e meio de trabalhadores saíram à rua.

Os transportes públicos não funcionaram na maioria das cidades, designadamente na capital, Roma, onde encerraram as três linhas de Metro e os restantes transportes, sujeitos a serviços mínimos, funcionaram apenas nas «horas de ponta».

Os ferroviários desafiaram a tentativa do governo de proibição da greve, paralisando metade do tráfego.

Nos aeroportos, as principais companhias aéreas viram-se obrigadas a cancelar centenas de voos.

Mas a greve fez-se também sentir fortemente na Administração Pública, serviços de saúde, escolas, universidades e em geral em todos os sectores de actividade.

O «Jobs Act»

O principal alvo dos protestos são as alterações à lei laboral, reforma aprovada, a 3 de Dezembro, no Senado, que Matteo Renzi baptizou com o termo inglês de «Jobs Act».

No essencial, o «Jobs Act» elimina o artigo 18.º do Estatuto dos Trabalhadores, aprovado em 1970 após muitos anos de luta, o qual prevê a reintegração do trabalhador em caso de despedimento sem justa causa.

A nova lei prevê ainda a diminuição dos direitos laborais nos primeiros anos de contrato, agravando a precariedade do trabalho entre as novas gerações.

Os trabalhadores poderão também ser sujeitos a videovigilância e a desempenhar funções diferentes das estipuladas no contrato.

O governo afirma que se trata de uma reforma histórica e totalmente de esquerda», que permitirá criar 800 mil postos de trabalho.

Os sindicatos retorquem que não é com a liberalização dos despedimentos que se cria novos empregos, mas sim com investimentos na economia, que a lei orçamental não prevê.

Desde que assumiu a chefia do Governo, em Fevereiro, Matteo Renzi tem atacado os sindicatos e evitado a concertação social em várias questões.

Em Outubro e Novembro, quando se realizaram várias greves e manifestações, Renzi afirmou com arrogância que «o tempo em que as manifestações bloqueavam o Governo acabou» e que «se os sindicalistas querem negociar, devem candidatar-se ao parlamento».

Findo o «berlusconismo», os trabalhadores italianos estão agora confrontados com uma forte ofensiva movida pela social-democracia, que, dizendo-se de esquerda, prossegue as políticas de direita para júbilo do capital.




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