Angela Merkel do alto do olimpo
Passos Coelho apontou aos jovens a porta da rua como serventia da casa, ou, noutro dizer mais polido, que partissem todos em peregrinação para lá da fronteira, poderia ser aquela de Badajoz ou de Vilar Formoso, porta para a Europa, onde, segundo o próprio, estando de maré a sorte ou soprando o vento a favor, todos encontrariam o que Portugal não tinha para lhes oferecer, emprego, direitos, um futuro de realizações e digno para si e para as suas famílias. Outros membros do Governo seguiram a voz do dono, e por governamentais palavras lá foram dizendo que não tinha o País que os pariu vontade de os lamber, enjeitando filhos e enteados onde já não abundam. Apesar da desnecessária insistência, são as palavras uma pobre evocação de decisões e políticas deste e de anteriores governos, das suas desastrosas consequências, directas e indirectas, pelo que esboroar-se-ão na posteridade se delas não restar testemunho, e pelo andar da carruagem, ou da peregrinação, serão cada vez menos os que cá ficarão para contar a história. Localizava-se, pois, para lá da fronteira o paraíso segundo Passos e Portas, a janela de oportunidade por onde passariam homens e mulheres rumo ao emprego, sendo portanto um acto piedoso o que de cima a baixo, ou ao revés, a hierarquia do Governo advogava. Ministros e secretários de Estado andavam pelo País a defender que partissem novos e velhos, que para esses também não tinha o País lugar, e lá foram todos, um adjunto de gente rumando à fronteira, alegres e contentes, segundo fontes do Governo, havendo esperança que de lá não voltassem tão cedo, para não engrossar ainda mais a taxa de desemprego, ou, regressando, que devolvessem o espólio da romagem para engalanar o virtuoso pagamento da impagável dívida pública. Um corrupio de gentes, diversas proveniências, um destino comum vergado a malas, mochilas e tarecos, cruzavam-se os caminhos, seguiam em comunidade de língua e de origem, quando não de destino, vão aqueles para França, os outros para a Holanda, Bélgica, Alemanha, mais para Norte os que além vão, têm por destino a Escandinávia, para o outro lado partiram para o Brasil e Angola.
Ao entrar neste olimpo, digamos entre a Raia e os Urais, ficam as gentes sujeitas a mandos e desmandos de outros deuses, das suas personalidades, humores e feitios, é outra a alçada da lei, se não é a mesma, é o destino comum de Portugal e da UE. Vão os olhos em deambulação desde a base até ao cimo deste olimpo, calcorreia-se uma a uma as divindades até chegar ao topo, onde uma distracção não daria conta que alguém estaria, menos poderia uma má visão, esfrega-se os olhos para tentar ver e lá está ela, a suprema divindade, Angela Merkel de sua graça, chefe do governo alemão. Diferentes os deuses mas uma vocação comum. Não sabemos se por omissão de linguagem, falha na tradução simultânea, ou erro na impressão, o seu decreto mais recente surge-nos assim, e não meteremos nele prego nem estopa, dito foi, transcrito será: «A Europa não é terra de futuro para jovens». É de excluir equívocos, apesar de tão alto vir a mensagem, surgem-nos as palavras límpidas, magnânimas desde a sua origem ao destino, até porque já antes, lá do alto, haviam chegado outras não menos premonitórias. Um decreto assim, a confissão de impotência ou determinação de uma tal divindade é para levar a sério. Compreende-se a decepção de todos os que contavam poder beneficiar da sua benevolência, da sua protecção, e não são poucos, conta-se aos milhões os que partiram, quando aos portugueses se juntarem os espanhóis, os gregos, os italianos, os turcos e todos os outros que de África, da Ásia, da América Latina procuram concretizar a vocação mais básica da humanidade, a sobrevivência e, se possível, realizar aspirações que só barrigas cheias podem sonhar.
Os olimpos sucumbem ao poder ardiloso das divindades, particularmente dos que parecem pairar por cima de todos os outros, mesmo de Merkel, falamos do capital. Dos escombros reerguer-se-á, pela vontade humana, uma realidade material que corresponda ao pulsar do tempo historicamente determinado e às aspirações dos povos. O futuro de uma geração, de um povo, de um país, não está nas mãos de qualquer divindade, tenha ela a nacionalidade que tiver. Só a luta pode romper com os ditames de quem julga pairar acima dos povos, as divindades que se arrogam no poder de decretar assim, de uma penada, o presente e o futuro de todos acabarão por tombar às suas mãos.