A propaganda reescreve a história
Cada comemoração «ocidental» do desembarque aliado na Normandia, em 6 de Junho de 1944, é ocasião para a repetição da mesma linha de distorção histórica. Esse desembarque «mudou o curso da II Guerra Mundial» (Público, 6.06.2014) e «acabou com Hitler» (diz o eufórico DN do mesmo dia).
O problema não reside apenas no desfiguramento do processo da derrota militar do nazi-fascismo. Reside na escolha de uma versão que procura elidir cumplicidades, ambiguidades, hesitações e pesadas responsabilidades dos EUA, da Grã-Bretanha e de outras potências capitalistas antes, durante e depois da Guerra. E que procura elidir o papel decisivo da URSS, do Exército Vermelho e do povo soviético, dos povos em armas da resistência antifascista na derrota do nazi-fascismo.
A abertura da «2.ª frente» na Europa não foi colocada «desde 1943» como diz o Público. Objecto de um comunicado conjunto anglo-soviético em 1942, foi protelada por ingleses e americanos para 1943 e apenas se concretiza em 1944. Depois das decisivas vitórias soviéticas de Leninegrado, Stalinegrado, Kursk e do seu avanço para Smolensk, Kiev, Donbass. Depois de norte-americanos e britânicos terem empreendido a operação na Tunísia e na Líbia. Depois da ofensiva aliada no Mediterrâneo e em Itália, e da rendição da Itália em Setembro de 1943.
A viragem na evolução do confronto já se verificara antes do desembarque na Normandia. Toda a história posterior indica que o objectivo estratégico fundamental desse desembarque não é a «derrota de Hitler». É impedir que essa derrota suceda exclusivamente perante a ofensiva do Exército Vermelho. É impedir que a derrota militar do nazi-fascismo seja também a derrota política do grande capital que o gerou e apoiou, e não apenas na Alemanha e em Itália.
É nesses termos que a II Guerra Mundial termina com duas acções monstruosas sem qualquer justificação militar: o bombardeamento de Hiroxima e Nagasaki, para impedir a rendição japonesa à URSS; e o bombardeamento de Dresden que, segundo um memorado da RAF da altura, serviria para «atingir o inimigo onde lhe dói mais […] e de caminho mostrar aos russos quando chegarem o que o comando de bombardeamentos é capaz de fazer».